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Casa de Ternura - Acolher, apoiar e potencializar a sua história. A Casa de Ternura é um espaço de assistência à família da gestação ao processo de desmame.
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Casa de Ternura - Acolher, apoiar e potencializar a sua história. A Casa de Ternura é um espaço de assistência à família da gestação ao processo de desmame.
Relatos de Parto

Letícia Dutra

Relato de Parto - Letícia Dutra
Relato de Parto - Letícia Dutra
Relato de Parto - Letícia Dutra
Relato de Parto - Letícia Dutra

Cada relato é um encontro de biografias

A biografia da mulher que era filha, se tornou companheira, parceira e, finalmente, se viu nessa jornada de tornar-se mãe pela gestação.

A biografia do bebê, que nem se dá conta, mas já viveu muito dentro da barriga de sua mãe até se criar ser humano.

A biografia das famílias que se criam e esperam o momento do nascimento. A biografia de todas as pessoas que participaram desse processo: doulas, enfermeiras, obstetras, pediatras, pais.
O relato é esse encontro, essa encruzilhada de narrativas e sensações.

O parto, o parto é o centro e, principalmente, é a chave da mudança.

Parir é passagem, é vivência, é vida que flui, poder e potência.

Parir é dança, é coreografia improvisada, embora muito estudada, foi encontro…
E, nesse encontro de almas, o que dizer sobre o parto da Kaoru e meu…
… sim, no coletivo, porque parimos juntas, como um só corpo, até nos separarmos algumas horas depois.

Kaoru quis nascer intensamente, quando quis, como quis e escolheu a privacidade para encontrar pela primeira vez sua família, e começar a sua história.
Não aguardou nem doula, nem enfermeira, e veio no quarto do hotel, em um parto domiciliar não planejado tão maluco quanto rápido.

Quem a recebeu foi mamãe em êxtase, seu papai em choque, que nem em um milhão de anos imaginariam que isso seria possível de acontecer com eles.
…
Engravidar sempre foi meu desejo, e quando eu decidi eu fiz muita coisa para conseguir. Precisei fazer uma cirurgia de correção de uma má-formação uterina que eu carregava em mim desde neném e que, na minha cabeça, era meu defeito e minha danação. Toda essa relação com meu útero, fez com que eu desacreditasse na minha capacidade, mesmo estudando muito para que eu tivesse uma gestação.

Eu me submeti a dois procedimentos em dezembro de 2020 e em fevereiro de 2021, respectivamente, e em julho eu engravidei. Eu não acreditei, e me desacreditei. Caio e eu, quando descobrimos, ficamos tão chocados que não conversamos sobre isso ao longo de três dias.

Logo com a descoberta, vieram uma enxurrada de medos e incertezas. Para quem espera muito algo, e não tem noção nenhuma do que esperar, acho que esse processo é natural (hoje). Eu tinha medo de estar fazendo tudo errado, de perder o bebê a qualquer momento, de não conseguir… ao contrário do que eu imaginava, eu não fiquei feliz, exuberante, plena ao descobrir minha gravidez, eu entrei em um loop de negatividade e medo, muito medo.

Mas meu bebê tão pequetito, continuou crescendo muito rápido. Tantas mudanças, tão rápido e, em seis semanas, eu já tinha um sonho sendo construído e virando a realidade mais linda que eu poderia pedir pro Universo. Ver seu contorno no primeiro ultrassom foi tão mágico, suas duas mãozinhas, seus pezinhos, ouvir seu coração que bateu tão rápido quanto foram embora as incertezas minhas e de um papai muito emocionado.

E assim seguimos, e construímos juntes uma gestação plena e consciente. Fiz de tudo para tudo dar certo, mesmo passando por frustações com meu plano de saúde, que não foram poucas, e somente encontrar uma equipe médica e uma maternidade que atendesse as minhas expectativas com 34 semanas. E assim, pude finalmente traçar um plano para parir que incluísse uma logística para ir pra Niterói com segurança, ter alguém para cuidar do meu cachorro, e ter a cabeça livre e entregue ao momento que eu mais esperava ao longo dessa jornada: ter meu bebê nos braços.
Eu nunca idealizei meu parto. Planejei cada passo para que o dia corresse tranquilamente, me preparei racionalmente para saber o que esperar de cada fase, mas eu nunca idealizei meu parto. Eu só queria que ele ocorresse, um meio para o fim, não uma travessia como de fato é.

Com 37 semanas, eu já estava na expectativa, e na insegurança, de parir. Com 38 semanas eu sabia que estava perto. No domingo (10/04) eu mandei mensagem para a Renata perguntando se ela já tinha visto alguém que não sabia que estava em trabalho de parto. Eu estava muito insegura.
Na manhã do dia 14 eu senti as primeiras contrações, sem saber que eram contrações, avisei Caio de que algo havia mudado, mas que eu estava bem, que eu mandaria mensagem pra Renata e seguiria minha vida. Que ele podia ir trabalhar sossegado. Fui
á fisioterapia normalmente, conversamos muito sobre parto, retornei pra casa lavei meu cabelo – já imaginando que possivelmente ficaria um tempo sem lavar – e me deitei, seguindo as orientações de relaxar e descansar.

Fui levando tranquilamente ao longo do dia, acreditando muito que ainda estava em estágios iniciais. A verdade é que eu subestimei completamente o processo. Desde as contrações iniciais que tive na manhã do dia 14 até a decisão de ir para Niterói às 20h, seguindo exatamente o plano que eu tinha em mente, eu achava que tinha tudo sobre controle.

Na minha cabeça, eu precisava seguir o passo a passo cuidadosamente pensado pois era a única coisa que dava sentido à tudo aquilo que eu estava vivenciando. Ao vomitar antes de sair de casa eu já sabia intuitivamente que estava bem perto, mas ainda assim não me ocorreu em nenhum momento de ir pra maternidade. Seguimos o que sempre dissemos que faríamos, iriamos para um hotel e aguardaríamos a fase ativa para depois ir pro Hospital.

Tudo evoluiu muito rápido! Eu lembro de na ponte, sentir fortes contrações, mas ainda me manter lúcida o suficiente para fazer piadas com o Caio, comentar de eventos políticos ou xingar o motorista lento, fazer notas mentais para enviar e-mail ao prefeito sobre o estado do asfalto das ruas do centro.
Chegando no hotel, eu ainda fiz a minha ficha, entre uma contração e outra, antes de subir para o quarto e entrar diretamente no chuveiro. Eu só queria ter um tempo de tranquilidade. Sempre em contato com Yasmin e Renata… eu achei que ainda teria muito tempo.
O chuveiro funcionou como um catalisador pra tudo, eu acho. Lembro de rapidamente ter dito pro Caio assumir as rédeas da comunicação com todos. Eu estava me entregando.
E era exatamente o que eu queria: um parto entregue. Que eu pudesse estar 100% focada no que eu tinha e queria fazer: parir meu bebê.
Tudo evoluiu muito rápido, repito! Não tinha como imaginar. Meu lado racional via o planejamento indo para o ralo. Antes de sair de casa eu imprimi duas cópias do meu plano de parto, e estava pronta para realizar o que eu tinha em mente. Quem disse… Antes de sair de casa minha mãe me abraçou muito forte: “Que a Nossa Senhora do Parto te acompanhe!”
As sensações iam escalando muito rápido. Depois de pouco tempo no chuveiro, a água quente não fazia efeito para controle da dor. Pedi ao Caio para avisar a Renata, em nenhum momento me ocorreu de pedir pra ela vir antes.

Lembro das minhas vistas turvas, do meu corpo implorando que eu sentasse, o que foi prontamente atendido (no chão de um box de hotel). Mas eu já não tinha controle de nada. Outra Letícia tinha assumido o controle, uma Letícia selvagem, uma onça que gosta de correr livre, mas que nesse momento pausou e me guiou.

Enquanto Caio tentava manejar 250 mensagens de telefone diferentes eu, em contrações ativas e vocalizações, gritava pela sua presença, precisava muito dele perto de mim, mas era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Quando Caio se sentou ao meu lado, segurou meus ombros, pegou na minha mão foi quando eu soube o que tinha que fazer. Mas não sem antes pensar em desistir, pensar em dizer “Caio, quando chegar na maternidade eu quero analgesia”, em me sentir fraca e impotente nesse processo todo. Sentindo contrações em ondas ininterruptas, que puxavam do meu períneo até meu esôfago em um looping maluco. Eu não tinha tempo pra respirar. Eu tentei muito não pensar em nada, e deixar as contrações me consumirem.

De repente uma sensação nova, confiança. Eu tinha uma coisa muito importante a ser feita! A Deusa parideira estava do meu lado, eu sabia o que tinha que fazer.
Do lado de fora daquele quarto, mil coisas aconteciam. Trocas de mensagem entre doula enfermeira, obstetra, fotógrafa, avós, deslocamento, tomadas de decisão. Dentro do quarto a decisão já tinha sido tomada, Kaoru queria nascer.
Senti a vontade de fazer cocô, e logo em seguida, depois de fazê-lo, senti o primeiro puxo. Intenso. Com a mão eu pude sentir a cabecinha dela, ainda tímida, saindo pelo meu canal, uma textura lisinha de balão.
“Caio, vai nascer!”
“Não, não, não.”

A gente não consegue impedir aquele poder descendo e exigindo passagem pela gente.
Mais dois puxos, ardência, e a cabeça saiu, foi horrível. Mais um puxo, o corpinho saiu.
Lembro nitidamente, do chorinho dela quase de imediato após ela sair. Lembro do Caio enfiar um telefone na minha frente, uma ligação em vídeo com a Yasmin, e ela falar “Pega seu bebê! Caio pega uma toalha, envolve ela”.
Lembro de observar aquele corpinho pequeno estatelado no chão de azulejo bege do hotel, eu incrédula, sem saber o que fazer, sem saber como pegá-la no colo. Como fazer isso?!
Lembro da sensação indescritível de segurá-la no colo pela primeira vez, envolvê-la com meu corpo, com meu amor.
Caio chorava nesse momento!
“Caio, olha quantas horas.” Eram 22h56 (somente uma hora depois de fazermos o check-in, ou um pouco mais que isso).

“Caio, coloca Madonna”
“Caio, tira umas fotos”
“Caio, me abraça, nós conseguimos!”
Durante 15 minutos curtimos sozinhos aquele momento. O momento em que nos tornamos família. Parimos! Eu, ela e Caio sozinhos no quarto do hotel nos reconhecendo. Buscando entender, ainda ternamente o significado daquele acontecimento nas nossas vidas.
Durante esses 10 minutos, a única coisa que fazia sentido no mundo, e na minha existência inteirinha, era nós três.
Mariana e Yasmin chegaram rápido, me acolheram e fomos pra maternidade. Mariana, com todo o carinho e força me ajudou a levantar. Elas colocaram uma roupa em mim, e descemos.
No caminho da maternidade, no carro, Yasmin me ajudou a colocar Kaoru para mamar. Foi a sensação mais incrível do mundo. Naquele momento nada tiraria ela dos meus braços, a única pessoa que a protegeria era eu.
Um adendo importante: Foi só na Maternidade, 1h30 depois, ainda nos meus braços, que Caio e eu descobrimos que era Kaoru. Foi decisão conjunta não querer saber o sexo do bebê até seu nascimento, era um bebê mágico desde o início e esse dado pra gente nunca importou. Foi surreal dar nome, cheiro, rostinho e corpinho para esse bebê que viveu dentro de mim durante 39 semanas, e ainda esperamos quase duas horas depois que ela nasceu para descobrir.
Parir foi a viagem mais louca, o mergulho mais profundo, muita entrega e pouco controle. A passagem física de um corpo saindo de mim, dá lugar ao transcendental sentimento de poder e empoderamento. Me senti poderosa, livre.

Kaoru foi incrível, foi forte, corajosa, potente. Quase inacreditável a forma como sua história começou.
Juntas, (RE) nascemos pelo seu parto.
…
Foi bem difícil escrever o meu relato, é difícil elaborar em palavras algo que foge muito do mundo racional, é difícil pensar em uma linguagem que comunique o parto em toda a sua intensidade, vocalizações, o choro do bebê. Refletindo sobre essa história, a nossa história, um encontro com a minha filha tão potente tão incrível, eu acho que palavra nenhuma vai representar tudo o que foi. Ao mesmo tempo só as palavras tem esse poder de dar sentido e preservar o início dessa história de amor.

Tags do Post: #Letícia Dutra#relato de parto#relatos de parto#relatos de partos

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