Lohrayne
MEU RELATO DE PARTO
Sabemos que o parto não começa no dia do parto, mas desde a descoberta da gestação e quem sabe antes disso…
Quanto ao processo ao qual denominados trabalho de parto vivi na pela todas as fases, talvez por conhecê-las por todos estudo e assistência que pude contar antes e durante a gravidez, vivenciei todos intensamente.
Prodromus, fase latente, fase ativa, tudo, tudo… os prodromus começaram mais ou menos por volta das 38/39 semanas (ou antes?) Só sei que comecei a esperar que o tampão saísse, qualquer sinal, mas o máximo que vivenciei foram cólicas e algumas contrações um pouco mais intensas (pois já sentia contrações de Braxton Hits desde mais ou menos 29 semanas).
Em seguida teve início a fase latente, quando a coisa começou a se intensificar. Eu e o Rômulo passamos alguns dias prestando atenção a contrações e observando todos os sinais, sempre em contato com a nossa obstetra @marianacarvalho.go e com a doula @luara, ambas fundamentais nesse processo. Tivemos pouco tempo para nós conectar pois fiz a mudança de obstetra com 29 semanas e iniciei o acompanhamento com a doula com 32 semanas.
As duas estavam sempre nos tranquilizando e fazendo confiar e entender que ainda não era a hora… muita ansiedade.
Juramos que não iriamos na consulta de 40 semanas e fomos… nessa consulta meu pai me acompanhou pois Rômulo precisou trabalhar e não teve como mesmo. Foi tudo ótimo na consulta e falamos também sobre a possibilidade de indução. A essa altura já estava decidido que apesar do plano de saúde oferecer uma opção de maternidade pelo plantão, optariamos pelo SUS, especificamente pela Maternidade Maria Amélia. Como sabemos a MMA possui seus percalços como toda rede sucateada do SUs mas que ainda assim não deixa de ser referência para quem quer um parto com o mínimo de intervenções e hoje posso dizer pela minha experiência que ela oferece o máximo de suporte e assistentecia dentro desse contexto.
Após a consulta das 40 semanas a coisa começou começou apertar… as contrações começaram a vir cada vez mais e a proximidade do parto era não só um sonho como uma necessidade, pois comecei a não querer passar pela indução por achar que isso iria desencadear uma insegurança para qual eu não estava preparada, começamos a cogitar novamente ir para o plantão da maternidade particular caso a indução fosse necessária…
No dia 14/11, especificamente na madrugada, já um pouco desacreditados de que as coisas fluírem naturalmente começamos a perceber as contrações tomando intervalos cada vez menores com durações cada vez maiores e mais intensas. Assim no final da madrugada decidimos que chamaríamos a doula Luara que esteve conosco na tarde anterior. As 4h entramos em contato, as 5h ela já estava a caminho. De manhã ao acordar (ou a começar o dia) pois não dormimos, percebemos que os intervalos da madrugada eram cada vez menores e que as contrações estavam bem fortes. Ao levantar só lembro de dizer a Rômulo (que contou as contrações pelo aplicativo a madrugada inteira): “para de mexer no celular e me ajuda” (estava um pouco ignorante nessa fase kkk) quando me deu a mão para levantar do sofá veio um vômito da alma, verde pastoso, sem explicação, acho que era a dor.
Bom,
…. mais detalhadamente foi assim:
Desde muito antes de pensar em engravidar, desde a adolescência ou entrada na faculdade talvez, penso na música “oração ao tempo” do Caetano Veloso quando penso em filhos. Cada um faz suas “escolhas” dentro de um leque de opções muitas vezes limitados, guardada as devidas proporções do que a expressão “escolha” esconde, enfim. A nossa “escolha” foi ter filhos depois de eu me formar, cursar pelo menos uma especialização e entrar na segunda e assim fiz. Descobri a gravidez no dia da entrevista do mestrado o qual ingressei em março de 2021 na Fiocruz. No dia foi enjoo, nervoso, tudo junto. Um teste de farmácia deu a resposta: seria tudo como planejado, uma loucura!
Nesse processo eu já havia iniciado os “exames pré concepção” e os resultados estavam para sair, quando saíram revelaram algumas alterações que a princípio pensei que inviabilizaria a concepção por hora, dentre elas havia uma alteração na tireoide, sendo que posteriormente descobri que a alteração provavelmente apareceu no exame por já estar grávida.
Nada foi como o planejado, tudo foi como o planejado, parece loucura mas podemos dizer assim.
Descobrimos a gestação no dia 15/03/2021 e no dia 19/03 foi a primeira consulta pré Natal, consulta com a médica que não sabíamos mas não ficaríamos até o final.
A partir daí foram 29 semanas consultas mensais, uma longa espera, a insegurança cada vez maior em relação ao respeito ao tipo de parto que eu queria, sendo assim com 29/30 semanas resolvi mudar de obstetra. Foi a melhor decisão que tomamos na gravidez, a partir daí ficamos mais seguros, confiantes e passamos a entender melhor o processo que desembocaria no parto, momento em que precisaríamos de força e não de fragilidade e insegurança.
A cada consulta a dr. @marianacarvalho.go foi nos mostrando que era possível que a chegada do Rael fosse respeitosa e segura e com o auxílio da Luara do @fardodeternura fomos amparados em nossas inseguranças, pois sabíamos que ao mesmo tempo em que tínhamos muito apoio estávamos de certa forma sozinhos em nossa decisão pelo parto normal. No Brasil o número de cesareas eletivas ultrapassa ferozmente o número de partos vaginais. Parto vaginal/normal virou sinônimo de dor, medo e “falta de dinheiro pra pagar cesarea” e etc. Como Assistente Social, trabalhadora e defensora da saúde pública de qualidade me senti implicada no processo de lutar pelo direito sexual e reprodutivo, dessa vez o meu direito de parir como e onde eu quisesse e foi assim depois de muito preparo, diálogo, conversa, estudo que decidimos abrir mão do parto numa maternidade particular que para muitos do nosso convívio seria um cenário ideal, para optar por um hospital público do outro lado da ponte. E fomos, embarcamos nessa. Ao completar 37 semanas começou a bater um pouco mais de ansiedade. As bolsas que já estavam arrumadas desde as 32 semanas (aqui tem preparo e ansiedade hahaha) começaram a ganhar cada vez mais itens, parece que conforme a realidade se aproximava percebiamos que podíamos precisar de mais coisas. A doula sempre nos orientando e a obstetra sempre nos tranquilizando quanto ao local, o parto, tudo… afinal, sempre esteve tudo bem com o Rael, ao contrário do que se pensa o parto normal é seguro, passar horas em trabalho de parto é comum e o Rael jamais esteve em perigo, enfim… Com a confiança que tínhamos e temos na Mariana decidimos que a gravidez, pasmem, passaria de 37 semanas e iria até 41 se fosse preciso (claro que começou a perturbação “esse bebê vai passar do tempo”) mas estávamos preparados, baseados em dados científicos pra essa pressão toda. rs
No final da gestação o acompanhamento começa a ocorrer semana a semana e ouvir o coração pulsante do Rael era sempre um alívio.
Cansaço, dor, dificuldade para caminhar… Lá íamos nós, toda semana ouvir o Rara. Já vinha sentindo cólicas há semanas e as contrações fracas haviam iniciado a uns 3 dias a essa altura
No dia 6 de novembro de 2021 enviei msg para a GO avisando que as coisas estavam avançando.
Nessa noite senti muita cólica e bastante pressão na região da virilha. Contrações foram 2 ou 3, mas ainda muito espaçadas (2h da manhã e 4h). A cólica era uma mistura de cólica menstrual com cólica de dor de barriga mesmo, vontade de ficar sentada no vaso fazendo força.
Uma certa hora teve a saída de um líquido mas o cheiro era neutro, não tinha cheiro característico de xixi nem de “água sanitária”. Tentei dormir pois a cólica ia voltava. Na hora que levantava estava difícil andar pois pareciq que essa parte do osso pélvico estava pesada demais.Assim foi nos dias seguintes, 7 e 8 até que no dia 9/11 a tarde começou a sair um pouco mais de líquido que antes. Um líquido transparente sem cheiro, com uns gruminhos brancos. Eu teria consulta no dia seguinte às 14h, mas achei que o Rael estava se mexendo menos (o que é normal nesse final) mas como todo cuidado é pouco decidimos verificar. Quando o Rômulo chegou do trabalho fomos a maternidade verificar se estava tudo certo o resultado foi Fervio, grosso, sem perdas, pH de 4, 1cm de dilatação… Voltamos pra casa com a médica do plantão dizendo “até semana que vem”, foi quase isso.
Depois disso as coisas estacionaram, dormi bem a noite e no outro dia na consulta parece que nada havia acontecido, eu não sentia absolutamente nada. Os batimentos estavam normais e a médica pediu uma ultra para a segunda feira seguinte (era quarta). Pensei comigo msm “não quero fazer ultra nenhuma!, que ele nasça antes” Na consulta do dia 10 a Mariana indicou que eu fizesse acupuntura na semana seguinte, o objetivo era estimular o trabalho de parto de maneira natural. Cheguei a mandar mensagem para as indicações que a obstetra e a doula deram… Algumas não responderam outras não tinham os horários que eu desejava (sinal).
No dia seguinte 11 de novembro fomos fazer caminhada e começou a chover, voltamos pra casa, pegamos o carro, fomos comprar um açaí depois fomos para a casa da minha mãe, fui pedalar um pouco na bicicleta ergometrica, já havia feito isso no dia anterior… também fizemos caminhadas algumas vezes na semana anterior. Nesse dia fiquei com preguiça mas o Rômulo me convenceu a ir mesmo assim. Depois da bicicleta voltamos para casa.Cheguei em casa sentindo algumas dores nas costas, começou uma dor nas costas como se ela contraisse (?). Desde a parte de trás do pescoço até acima do quadril. A barriga não contraia, só sentia uma cólica leve que ia e voltava. A médica disse que as cólicas podiam ser o início do processo, pensei (início?). Fiquei um pouco na bola, fiz um alongamento, pensei que pudesse ser resultado dos agachamentos e outros exercícios que fiz, não adiantou muito. A GO chegou a questionar se eu estava tensa, mas não estava… não me sentia tensa. Sugeriu que eu tomasse um banho morninho, sentada e relaxando as costas, colocamos a cadeira no boxe e comecei meus banhos quentes que durariam até domingo (ajuda muito!, desculpa planeta haha). A dor não era fixa, ia e voltava, repuxando, o banho ajudava a relaxar. Dia 12 de novembro pela manhã quando fui me secar saiu o papel um pouco sanguinolento, bem rosado e sutil, mesmo assim, como combinado enviei para a GO. Ela respondeu que era o colo amolecendo e mudando (opaaa)Dia 13 de novembro, sábado, eu tinha certeza que não passaria desse dia pra nascer. O Rômulo iria trabalhar em Macaé mas desistiu, estava muito perto (eu podia sentir rs) ele perguntou se eu achava que ele deveria ficar e eu disse que não sabia, depois dos vai e volta dos sinais eu já não sabia de mais nada.
As 5:20h enviei mensagem para a GO avisando que tive contrações desde o dia anterior às 13h… os intervalos estavam bem grandes mas foram diminuindo gradualmente. O tempo de duração das contrações foram aumentando (a essa altura eu já havia baixado uns 2 aplicativos de contagem de contrações). A média ainda estava de 12 minutos de intervalo e duração de +/- 1 minuto.
Sem saída do tampão, só um sujinho marron seco no papel quando fazia xixi. A contração estava concentrada na parte inferior da barriga, começou a irradiar para a parte de baixo virilha/ânus repuxando a partir de 2h da manhã mais ou menos, mas não eram todas que vinham assim.
Na verdade acredito que o tempo de duração era menor, a Luara (doula) nos alertou pra contarmos o “pico” e não até o fim da contratação.
Enquanto estava no chuveiro lá tive mais 3 dessas. O banho, ajudou a aliviar um pouco, continuavam concentradas na parte de baixo do umbigo.
Contando só o pico, não contando até o fim, os intervalos foram ficando com menos de 10 minutos, algumas davam menos de 5 minutos, sendo que a duração estava em média 20 segundos (ou seja, nada de padrão, tudo mudava toda hora). O intervalo diminuiu depois das 5h, depois aumentou bastante, por fim parei de contar…. chega!
A GO e a doula sugeriram que eu parasse de contar e só sentisse, tentasse descansar. A Luara fez uma chamada de vídeo e fizemos uns exercícios, fiquei um tempinho no chuveiro também, depois fui tomar café da manhã e tentei dormir um pouco. No dia 13 às 13:44h enviei uma mensagem para a Mariana e para a Luara avisando que às contrações espaçaram, depois que amanheceu, depois de 12h os intervalos diminuíram ainda mais, foram pra mais ou menos 15 minutos.
Na parte da tarde as contrações vieram de uma forma diferente, como se fosse a cabeça dele pressionando para baixo. A tendência na hora da dor era que eu fechasse a perna, combinei com o Rômulo pra na hora me incentivar e ajudar a afastar as pernas pois a sensação melhorava um pouco, assim fizemos… sempre em contato com a doula, indo e voltando para os banhos quentes, comecei a perguntar sobre a melhor hora de ir a maternidade e pedi para a Luara vir até aqui. E assim ela fez.
A noite às contrações ficaram mais doloridas mas seguiram bem espaçadas. A doula veio até minha casa, presenciou algumas contrações, fizemos exercícios do spinning babies e conversamos um pouco, a conversa me ajudou a ficar menos ansiosa. A Luara foi embora e decidimos esperar mais um pouco, ainda não estava na hora. A noite as contrações ficaram mais doloridas, cada vez mais doloridas, mas seguiram bem espaçadas. Elas aumentavam e já era possível Rômulo identificar com mais certeza quando elas vinham pois eu vocalizava alto… nesse momento ele cronometrava pelo aplicativo, parecia ser possível cochilar entre uma contração e outra, porém os intervalos estavam de 5 minutos até o meio da madrugada, depois foram diminuindo e diminuindo… às 4h já estavam a cada 3 minutos. Rômulo achou melhor pedirmos para a Luara vir, enquanto eu, não sei porque, ainda não achava necessário. Por volta de 4:30h Não conseguia mais tirar nenhum cochilo, enviei um áudio para a Luara narrando o que estava acontecendo. Depois as 5:50h mais ou menos estávamos já deitados no sofá esperando as coisas evoluírem, entre um cochilo e outro eu gemia alto e Rômulo contava as contrações. Até que em algum momento enquanto Rômulo despertou e passou a mexer no celular eu disse “para de mexer no celular e me ajuda” (no caso era me ajudar a levantar) ele prontamente levantou e eu estendi a mão. Ao levantar e sentar no sofá saiu um jato de vômito com tudo. Como um ninja Rômulo puxou o tapete e vomitei no chão, uma água grossa verde, (parecia sopa de ervilha), no mesmo momento Rômulo enviou msg para a Luara que disse que era normal o vômito a essa altura. Antes havíamos feito uma chamada de vídeo e Luara observou como eu me comportava durante as contrações. Enquanto Luara estava a caminho
Rômulo foi arrumar o resto do que faltava e eu fiquei sentada no sofá de olhos fechados. Quando a Luara chegou me auxiliou a tomar banho, ainda quis ficar um pouco sentada na cadeira que estava no chuveiro quando vinham as contrações. Em seguida ela me auxiliou a vestir a roupa e fomos descendo devagar. Moro bem longe da portaria e fomos andando e parando… Como era cedo não havia quase ninguém na rua. Eu já estava meio fora de órbita, me sentia esgotada.
Pegamos as bolsas que ainda estavam em casa e descemos as escadas devagar…(pelas contrações lembro de pensar que não sabia como chegaria lá embaixo). Lembro de pensar a todo momento “nossa, se não fosse a doula…”
Entramos no carro e até a posição mais confortável foi sugerida por ela, fui assim por um tempo mas a cada buraco o carro balançava e eu me sentia pior. Sentei e fechei os olhos… Moramos em Niterói e fomos até o centro do RJ.
Pensando agora, lembro que em nenhum momento cogitei ir para a outra maternidade. Resultado de uma ótima orientação que tive da Mariana e da Luara.
Lembro que ao entrar no carro que já estava estacionado próximo a escada e com as coisas arrumadas. A Luara disse que a melhor posição para eu ir seria ajoelhada no banco. Assim fui até um certo ponto, depois comecei a sentir vontade de ficar deitada e assim fiz. Na mochila do meu lado havia um Biscoito queijinho salgado e uma garrafa d’água. De olhos fechados bebi água e comi alguns dos biscoitos, quando a contração veio nem consegui mastigar.
Em alguns minutos chegamos ao destino… descemos do carro, pegamos as bolsas e fomos. Na admissão lembro de estar calma, mas com a sensação de estar com os olhos fechados, a enfermeira sugeriu que eu colocasse a máscara (não sei onde foi parar). Mediram a pressão, fizeram a triagem e entrei para a pré consulta com a enfermeira obstétrica. Em seguida passaria pela médica. A enfermeira sugeriu que eu caminhasse e me movimentasse para ajudar na dilatação. Voltando um pouco, chegando na porta a Luara disse pra eu descer devagar, antes de descer bebi água e ao descer lembro de Rômulo ou Luara perguntarem se eu gostaria de subir pela escada ou pela rampa. Acho que respondi rispidamente “por onde for mais rápido” e assim fomos pela escada.
Ao chegar na porta vi uma gestante andando e gemendo um pouco de dor, parecia estar fazendo exercícios, lembro que estava de blusa laranja.
A frente havia uma porta de vidro e o segurança veio nos receber, nos dirigimos ao balcão onde fizemos o cadastro eu fui orientada a ir para a mesa ao lado onde fizeram uma trigem. Mediram a pressão e fizeram algumas perguntas breves em seguida disseram que eu iria passar pela pré consulta e assim entrei. Lá dentro passei por uma anamnese com a enfermeira obstétrica que fez algumas perguntas que não lembro. Em seguida fui aguardar num Hall onde haviam outras gestantes também com dores, incluindo aquela de blusa laranja. Parece que chamavam todas menos eu… de sentada passei a ficar e pé vocalizando nas contrações assim como as outras, ficava com medo de ir ao banheiro mas depois de ter ido a primeira vez fui mais umas 2 ou 3x, fazia um pouco de xixi praticamente em pé, parece que não saia nada. Isso era umas 7/8h da manhã… Ficar sentada na cadeira já me causava um certo incômodo como se ele tivesse com a cabeça no meio das minhas pernas.
Só queria sentar e aproveitar para descansar no intervalo entre as contrações que passaram a ficar mais espaçadas a essa altura. Sentei e esperei, esperei… enquanto isso nessa sala de espera foram chegando outras grávidas. Ficávamos lá desacompanhadas.Chamou uma, chamou outra e outra que parecia ter chegado depois de mim (talvez com classificação de risco maior? Ok), mas minha vez não chega… intuitivamente comecei a ficar em pé e a me movimentar, antes ainda estava sob um efeito que havia me assolado nas últimas semanas em que eu me sentia “trancando” o processo, não me entregava. Comecei a andar e a me mexer, mexia, mexia… andava, gemia, de olhos fechados, sempre de olhos fechados primeiro com minha pasta de documentos nas mãos depois sem, a deixei no banco ao lado. As contrações voltaram a ritimar, gemia mas era comum, por ali todas estavam assim… um coro de gemidos revezando-se. Fui ao banheiro 2 ou 3x nesse intervalo, fiz xixi em pé, já um pouco dura com medo. Romulo apareceu na porta do nada, apreenssivo querendo saber como eu estava, me viu e falei pra ele ir lá pra fora com medo de brigarem, em seguida Luara apareceu e me ajudou a movimentar um pouco o quadril logo a enfermeira veio e pediu que ela saísse se não todos os acompanhantes iriam querer entrar. Depois tive dimensão que fiquei muito mais de uma hora nessa pré consulta, por isso Rômulo e Luara acabaram entrando, pois estavam preocupados. Quando a médica finalmente me chamou entrei com a pasta rosa com toda os documentos do pré Natal na mão. A princípio sentei e respondi algumas perguntas, depois quis continuar respondendo em pé, as contrações vinham e eu permanecia de olhos fechados. A médica disse que iria me examinar, fiquei em pé em frente a Maca pensando acredito eu que não teria a menor condição de subir ali até que ela pediu que eu subisse, subi e fiquei vestida até que ela disse que eu precisava tirar a calça a qual eu tirei com imenso sacrifício, mesmo sendo super larga. Em seguida a médica fez um exame de toque e disse “5cm, ótimo, é hoje!” E anunciou que eu iria internar. Saindo dessa sala fui para o exame de cardiotoco com a enfermeira obstétrica que me atendeu inicialmente, lá fiquei deitada numa cama enquanto ela monitorava o coração do Rael, disse que duraria uns 20min e me orientou a tentar dormir e descansar nesse tempo, tentei e até consegui um pouco, parece que nesse tempo as contrações diminuíram e a cama me pareceu muito confortável. A enfermeira tinha uma fala doce e isso me acalmou (inicialmente achei que ela fosse ríspida pois na admissão foi meio desagravel a dizer “só coloca a máscara por favor, ainda estamos na pandemia” sendo que naquela altura eu não fazia ideia de onde estava a minha, acho que pedi uma e ela me deu)
Após o exame o maqueiro veio me buscar e me levou junto com outra enfermeira para a sala de parto, antes de entrar no elevador dei tchau a Rômulo e a Luara e alguém me disse que eles subiriam em seguida e me encontrariam na sala de parto. Sei que troquei de roupa e recebi uma camisola, contudo não sei em que momento. Ao chegar na sala de parto percebi que era um espaço individual e isso me deixou bastante aliviada era uma sala bem grande e equipada, havia também um banheiro Não lembro bem a ordem das coisas só sei que no tempo que estive lá passei bastante tempo no chuveiro quente o qual logo na chegada ajudou a aliviar bastante as dores Inicialmente fiquei em pé no chuveiro mas as dores auentavam, aumentavam e pedi um banco… primeiro sentei no banco, depois ajoelhei e abracei o banco, sentei até no chão, até que Romulo pegou um pano e trouxe pra eu sentar. Sempre que olhava observava que Luara ou Rômulo estavam sentados de frente pra mim me observando, isso me acalmava. Inicialmente eu jurei que conseguiria ficar no chuveiro sem molhar o cabelo. Depois de um bom tempo sai do chuveiro e quis ir para a cama, eu havia tomado banho de verdade (pois como me conheço levei Sabonete, detesto me molhar e não passar Sabonete) era um Sabonete roxo, pra mim esse Sabonete tem cheiro de sala de parto.
Quando fui para a cama lembro que veio a vontade de empurrar, fiquei de quatro e empurrei bastante, não aconteceu muita coisa mas sentia que as coisas estavam se movimentando. Lembro de ter perguntado a hora várias vezes, não sei se não me respondiam ou eu não assimilava, olhava da janela e via que o sol estava quente. De tempos em tempos uma médica simpática vinha monitorar o coração do Rael, verificava a altura dele pelas batidas, acho que por onde o coracao estava localizado, não sei. Eu ouvia ela se comunicar com a doula está em 1, esta em 2… longe, não perguntava nada. Sabia que não era a dilatação. Eu quis voltar pra o chuveiro, depois quis ficar deitada, fiquei um bom tempo no chuveiro, acho que até dormi, alaguei a sala, alguém veio secar. Comecei a demonstrar sinais de cansaço, Luara me encorajava a me movimentar, fizemos alguns exercícios, caminhamos, fiz o exercício da escada me movimentando, toda hora dizia que não queria mais, estava cansada, queria deitar. Lembro que Romulo me deu Biscoito e qd a contração veio joguei no chão. A contração vinha e Rômulo segurava minha mão que eu apertava, acredito que com bastante força.Eu fiquei deitada por exaustão mas nesse momento essa dor ficou pior quando as contrações vinham eu gemia de dor Desesperadamente “aaaai” num coro tremido, lembro de Rômulo segurando minha mão dizendo que iria passar. Parecia vir a cada 2 minutos Não sei bem… era muita dor como se fosse algo empurrando atrás e na frente Depois decidi ficar sentada. A dor vinha e parecia menos pior qd eu estava sentada, até que começou a ficar bastante ruim também. Lembro de pessoas atrás de mim em alguns momentos mas não haviam conversas paralelas (como sinalizei no meu plano de parto) Já começava a cair o sol… por fim ajoelhada na cama decidi pela analgesia, falei com Luara e Rômulo (sem usar o codigo) e pedi que Rômulo chamasse a médica, quando eu verbalizei “como funciona a questão da analgesia?” ou foi Rômulo? Não lembro. A médica disse “nós fazemos sim” e foi pedir que preparassem tudo. Em pouco tempo entrou uma enfermeira com um carrinho e ouvi alguém dizer que a anestesista estava na CO 1 algo assim…Nesse momento a Luara disse que eles faziam um cardiotoco que durava uns 20 minutos e depois davam a anestesia… fiquei desesperada, não queria esperar todo esse tempo. A anestesista veio e eu estava sentada na cama, as contrações vinham e vinham…Começaram a colocar alguns acho que eletrodos em mim e a instalar alguns aparelho de monitoramento de pressão, batimentos etc Enquanto a anestesista instalava, algo não funcionou e ela anunciou para a técnica que precisaria trocar os aparelhos. Rômulo em frente a cama segurava a minha mão e Luara ficava sempre próxima. Em algum momento eu disse “moça me ajuda pelo amor de Deus” me dirigindo a anestesista. Logo viram que o aparelho funcionou e não precisaria trocar, ainda bem.Vi que minha prisão estava 16 (?) Não lembro, estava tudo meio turvo. Logo a anestesista começou a explicar como funcionava e disse pra eu avisar quando viesse uma contração. Eu disse que tudo bem…. ela preparava tudo e me explicou em que posição eu deveria ficar. Toda vez que vinha uma contração eu avisava e ela parava, não lembro muito bem a sensação, mas não doía… Eu precisava ficar com o pescoço abaixado. As contrações que vieram nesse intervalo não pareciam tão ruins mas eram doloridas. Ela avisou que após a anestesia eu sentiria mais umas 2, talvez 3 contrações mas que amenizariam aos poucos. Nesse momento senti como se tudo tivesse chegando ao fim. Após a aplicação da anestesia acho que não senti nenhuma contração forte mais. Ao acabar Luara sugeriu que eu descansasse. Alguém me tapou com o cobertor rosa que levei e lembro de ter relaxado muito, só pensando em coisas boas… Pensei em como eu narraria para as pessoas sobre como aquilo era tudo ótimo muito bom (Chapada?)
Tentei dormir e nada… ficava de olho no aparelho que monitorava os batimentos do Rael, Rômulo tambem olhava e falou pra eu não prestar atenção, descansar. Vi que o padrão de batimentos descia pouco estava normal. Tentei fechar os olhos e nada.. de repente comecei a sentir algo empurrar, não era mais vontade de fazer força claramente ele estava empurrando a cabeça. Falei pra Rômulo chamar a Luara que havia saído, pedi pra chamar alguém. Lembro de movimento, pessoas, alguém perguntou onde estava a Luara e dissemos que ela já estava chegando. Acho que prepararam as coisas e em seguida Luara chegou. Eu desci da maca e havia um banquinho roxo de plástico. Sentei lá… apagaram a luz, as médicas se posicionaram a frente, Rômulo atrás de mim e Luara ao lado. Luara estava com o celular, filmou e tirou foto (gratidão eterna por isso). Senti uma contração e vontade de fazer força, fiz… ainda não foi dessa vez. Senti uma certa agonia, parecia que havia algo pra sair, parece mesmo uma vontade de fazer n° 2 com vontade de vomitar, a barriga cheia. Fiz força de novo, mesmo sem contração, a médica pediu que esperasse a próxima contração, não acatei, fiz força, força… outra contração, Senti a cabeça dele muito perto, uma força, mantive a força, verbalizava “orrrrrrrrr” senti ele sair de uma vez… A médica pegou e imediatamente colocou ele em contato comigo. Molhado, melado, escorregadio e meio morninho. Segurei firme. Eu e Rômulo chorando “Oi filho, oi amor” desde esse momento nunca mais nos desgrudamos, ainda lembro do cheiro e da textura… um chorinho tímido… Rael chegou. 💙



