Natália Emmerick
Relato de parto – Noah
Dia 27/01- 36 semanas de gestação- Consulta com a Dra. Aline, cabeça de Noah bem alinhadinha na minha bacia. Lembro da carinha dela de talvez esse bebê não me espere voltar de férias dia 15/02. Mas pra mim bebê seria de Peixes sem sombra de dúvidas. Rs rs. Mais perto da dpp.
Dia 11/02- senti umas cólicas muito sutis no baixo ventre de madrugada, fui na médica Luisa, ela me explicou que isso poderia já ser o colo se afinando, conversamos sobre tudo, tudo certo, vida que segue.
Dia 12/02- continuei sentindo as cólicas no mesmo local de madrugada, acordo, mando mensagem pra Camille, aviso das cólicas, levanto pra fazer xixi, olho a calcinha e lá está parte do meu tampão com um cadinho de sangue. Mix de sentimentos, “não pode ser por agora, só fiz 38 semanas”; “ai Noah, jurava que vc seria pisciano hehe”. Vida que segue. Ao um longo do dia saindo o tampão o tempo todo. Aviso a toda a equipe.
Dia 13/02- continuou saindo tampão, bastante secreção, vida que segue. As 17:30, to deitada na cama e sinto como se tivesse feito xixi. Coloco a mão por lá e to molhada um pouco diferente.
Corro pra fazer xixi, tiro a calcinha e pinga duas poças no chão, fiquei rindo de nervoso. Seria a bolsa?! Não fazia ideia. Mando mensagem pra equipe. Camille sugere um absorvente pra ver se seria xixi ou a bolsa e fiz isso. 15 minutos depois estava encharcado. Mando mensagem pra todos de novo.
Dra. Luisa achou melhor ir a Perinatal confirmar se estava com bolsa rota, lá fui eu, com um singelo absorvente de pano dando conta do recado, levamos tudo da maternidade na mala, vai que começava por ali né?! Chovia torrencialmente.
Na Perinatal, assim que eu deitei na maca, escorreu o liquido e a médica e nós rimos. Não tinha dúvidas, fez o teste da fita de pH só pra ter um exame pra afirmar para minha médica. E assim foi. Fiz o cardiotoco pra ver se estava tudo bem, tudo ok. Volto pra casa. Nessa volta Dra. Luisa ja tinha acertado o protocolo de inicio do antibiótico 18 horas depois e indução caso eu não entrasse espontaneamente em TP.
14/02- 00:30- O bicho pegou! Comecei a senti MUITA DOR NAS COSTAS. Eu só lembrava da minha avó me dizendo que era ali que ela sentia as contrações do parto, então não tinha dúvidas que era Noah vindo. Mas seriam pródromos? Seria fase ativa de TP já?! Contávamos as contrações e elas ja estavam vindo muito frequentes, para a gente pareciam muito ritmadas já. Lembro também da minha amiga Carol que me descreveu cada contração como uma onda e que nos intervalos de calma ela podia relaxar.
Mandamos mensagem pra equipe toda e pra Camille e a fotógrafa Michelle que estavam no carro voltando de outro TP na Perinatal de Laranjeiras. Camille sugeriu eu tentar relaxar entre cada contração. Eu só pensava meu Deus, isso é impossivel. A cada uma eu só queria me mexer, lembrava que se eu estivesse em prodromos eu teria que tentar descansar. E já doia TANTO! Com muita tensão nesse momento, tentei ir pro chuveiro, nada de conseguir relaxar. Comecei a dizer que queria um analgésico, qualquer coisa pra me aliviar daquilo (risos). Depois eu já dizia que ia desistir que não conseguiria aguentar aquilo. Queria analgesia de qualquer forma!! Nesse momento me bateu medo de tudo! Medo da ida até a Perinatal, medo da dor que pudesse vir além daquela, medo de ser mãe, medo de não dar conta, medo de ser julgada, enfim, muito medo!! Chorei, deixei vir tudo que tinha que vir, toda minha historia, tudo que me fez estar ali naquele momento e tudo que pudesse ser de cenário futuro, passado e presente. Tatá e minha mãe comigo o tempo todo. Elas tentavam me acalmar, me acolhendo e amando. Lembro de ficar muito reativa ao toque delas, tudo me doia, era uma dor de alma.
Não lembro bem em que momento ligamos para a doula. A Camille era minha doula referencia, mas ela estava virada de outro parto, precisava descansar e acionou a backup dela a doula Renata Suzano, que ficou dando todo o suporte, e assim que veio para a minha casa, nessa hora eu pensava que não estava muito confortável com isso, nunca conversei com a Renata, não a conhecia, como iria me expor tanto ali?! Minha obstetra era a Dra. Aline Portelinha, ela estava de férias e retornaria no dia 15/01, como eu tinha certeza que Noah viria somente mais pra perto da data provável do parto, eu topei seguir o pré natal com Aline mesmo sabendo desde a primeira consulta que ela não estaria por aqui até o dia 15 e eu já estaria a termo. Então eu pensava, poxa, não vai ser com ngm que escolhi e me entreguei na gestação. Não acreditava que já estava em TP também. A Dra. Luisa foi o backup da Aline durante as férias dela, tive duas consultas com ela, e eu dizia, tudo bem se tiver que ser com a Luisa, ela é fofa e carinhosa como a Aline, mas no fundo eu pensava que daria tempo da Aline chegar rs rs. Então também pensava sobre como não seria como planejei, nem com as pessoas que planejei. Pânico e medo total!
Renata conversou de video conosco, observou, fiquei contida e tímida no telefone com ela, mas topamos que ela viesse pra eu poder ficar mais calma. E assim foi. Voltei pro chuveiro, chorei, suava frio, me sentia já exausta e já no que eu considerava extremo da dor! Queria ter dormido! Fiquei revoltada que veio antes de eu conseguir dormir hehe.
Renata chegou e me avaliou… “Vamos pra maternidade!!” Eu já estava em parto ativo.
Desço na garagem, uma contração na porta do elevador, fico de cócoras e com vergonha do porteiro me vendo na câmera, Tainá e Renata me tranquilizam.
Fui no banco de trás com Renata, Tainá dirigindo, vamos pra Perinatal de Laranjeiras… a cada contração, agarrava os encostos de cabeça do carro e berrava e muito. E entre cada contração eu descansava sobre Renata que me acalmava e me preparava pra próxima. E nessa hora comecei a berrar que tava com vontade de fazer força!! Meu Deus que demora! Até que Meu Deus, chegamos! Isso era as 04:30 da manhã. Quando entramos na garagem, lá está Luisa nos esperando, aquilo na hora me relaxou.
Me colocam na cadeira de rodas, as meninas foram se trocar.
Como um passe de magica, reaparecem elas e Luisa faz o toque e ausculta de Noah. Notícias boas, coração dele lindo e eu com quase 7 cm de dilatação, Noah já estava bem baixo. Palavras da Dra. Luisa: “não vai demorar muito!”. Aquilo deu um quentinho dentro de mim de “to no caminho certo e as dores eram pq Noah tava vindo mesmo”. Em casa eu já me sentia muito exausta, queria ter dormido, não estava aceitando que foi de madrugada, nem comer eu tinha comido, só queria descansar, minha última refeição tinha sido uma fatia de torta holandesa com doce de leite na perinatal no sábado quando fui ser avaliada. Me sentia muito exausta nesse momento do parto, lembro de suar frio e sentir frio.
Sou apresentada a Dra. Ana, que foi a obstetra auxiliar da Dra. Luisa.
A partir dai considero que entrei na tal partolândia. Tudo é muito sem sequência, não lembro das falas das pessoas, não lembro dos sons. Fiquei grande parte do parto de olho fechado e quando abria e voltava em mim, lá estava um dos meus anjos da guarda me amparando e me preparando para a próxima contração, me sentia completamente conectada com a Renata, toda minha vergonha de qualquer coisa ja tinha ido embora. Ela estava ali por mim e comigo.
Eu ficava revezando entre banqueta e banheira semi cheia, a pressão da água entrando na vagina me causava um desconforto horroroso, mas ao mesmo tempo estar perto da água era muito acolhedor, era um abre e fecha ralo rs rs. E mesmo quando eu não estava na banheira, queria o chuveiro ligado, aquele barulho estava me acalmando e muito. A cada contração, eu ficava de cócoras e fazia MUITA FORÇA, eu lembro de ir e vir dessa sensação de transe, lembro das falas e toques das doulas, sim doulas, a Camille chegou um momento que eu estava na banheira, só lembro de me sentir feliz que estavam todas ali que poderiam chegar naquele dia, incluindo a Michelle fotógrafa. Além disso, o olhar carinhoso da Luisa, da presença da Tatá, delas me dando água, todos me ajudando a fazer força. De um melzinho que Camille me deu que me trouxe energia instantânea. E eu não sentia dor alguma nesse momento! Era como se eu conhecesse a dor nessa hora e ela não pudesse me dominar, eu era mais forte.
Camille me sugeriu em algum momento tentar sentir a cabeça dele em uma contração, e assim o fiz, e senti! Mais uma vitória, aquilo tudo REALMENTE tava dando certo e ele tava vindo!!
Comecei a sentir mais pressão e ai veio novamente a dor, dor nas costas, e uma vontade looouca de fazer força. Lembro de perguntar se eu ja estava no expulsivo e elas me confirmarem. Ihuul mais uma vitória! Vem filho, vem Noah. E foram várias contrações, várias, pergunto se estou demorando tempo demais ali, elas me dizem que não. Luisa começa a por um espelho embaixo de mim e a observar como está evoluindo, lembro dela me dizer “já te digo se ele é cabeludo”. “Veeem filho” “Vem Noah”, força, MUITA força e nada. A cada contração começo a perceber que to sendo mais monitorada pela médica e que elas falam entre si, prefiro nem perguntar o que está acontecendo, mas ao mesmo tempo vejo olhares um pouco diferentes e padrões diferentes, começo também a achar que está demorando.
Até que pergunto se está tudo bem, Luisa vem e conversa comigo, o bebe ta com uma frequência cardíaca não tranquilizadora, precisam me por no soro e no oxigênio, vambora! Ela também me sugere mudar de posição para de 4, tento fazer isso, algumas contrações ali, nada confortáveis e nada. Cadê essa cabecinha meu Deus!? Volto pra banqueta, outras contrações, canalizo toda a minha força a cada contração, Camille dizia coisas nesse momento como isso de canalizar a força, que tipo de sentimento eu sentia, e etc, e para usar isso pra fazer mais força. E assim eu fiz, canalizei tudo isso e nada e nada. Ele precisava sair logo. Continuo a ver os olhares e monitorações totalmente vigilantes, começo a ficar com medo também. Volto pra banqueta, tento mais um pouco e nada.
Até que Luisa me diz algo parecido com isso: “Precisaremos intervir, o coração do Noah está oscilando muito.” Ela conversou sobre o vácuo extrator e sobre como seria tudo, iria doer mas traria Noah logo porque era essencial. Lembro na hora de tudo que estudei e me preparei, era uma intervenção necessária e a menos invasiva! Se Luisa sugeriu, tinha que ser feito e agora. Camille conversou comigo e me relembra e tranquiliza sobre tudo também. Luisa puxaria o vácuo a cada contração enquanto eu fizesse força. Nessa hora eu só lembro do PÂNICO QUE EU SENTIA! Muito muito pânico, olhava pra Tatá e ela pra mim também com medo, Camille nos acalmando. Eu não podia perder meu bebê. Era muita adrenalina, VEM NOAH!! Colocar o vácuo doeu na alma, muito dolorido colocar aquilo, próxima contração, Luisa foi e puxou junto, o “kiwi” sai da cabeça do Noah, ela me fala que vai por de novo e ai colocou, outra contração, dessa vez ardeu tudo lá embaixo, o tal círculo de fogo e foi muito rápido. Meu Deus! Luisa dizendo pra fazer força que ele tinha que sair naquela hora não dava pra esperar a próxima contração e eu fiz a maior força que eu pude e pronto! Ele veio!! Ele veio!! Eu retiro imediatamente a máscara, quero ver ele! Colocam ele no meu colo direto e eu não lembro de ouvir o choro dele, Tainá me lembra depois que ele abriu um berreiro. Dra. Luisa e Dra. Ana verbalizam alto, duas circulares de pé, uma em cada pé, deixando o cordão bem curto. Camille conversa comigo, provavelmente era isso que não deixava ele sair tão fácil, a cada contração era eu puxando ele pra fora e as circulares pra dentro. Sei que depois observando o pezinho dele, ficou até com essa marca como se fosse um garrote.
Eu estava tão tão tão a base de adrenalina que só queria respirar e ver meu filho! Ver se ele estava bem mesmo e que ele ficasse ali comigo. Dra. Alana vem avaliar, colocou uma touca na cabeça dele, que ficou oval e diferente, eu imediatamente lembro de já ter visto fotos de como ficava a cabeça do bebê após o uso do kiwi nos meus estudos e me tranquilizo por ele estar assim, mas botem uma toquinha nele logo, me deu nervoso, mesmo sabendo que a cabeça dele não era assim.
Alana me diz que ele pode ficar comigo na hora de ouro, estava tudo bem, só precisava ser aquecido, e assim ficou comigo, uma hora, Dra Alana vinha olhar ele no meu colo de vez em quando de forma muito amorosa e delicada. Continuamos unidos, mas eu ainda digerindo TODO O PANICO DO FINAL. Ele tava ali mesmo, eu consegui parir, ele chegou!
Falo pra Tainá avisar a todos! Noah ta aqui! Noah está bem! Eu to bem! Nasceu!
As 08:08 numa manhã de Domingo! Como Anunciação! ❤️
Ficamos um tempo, Tainá me diz que meus pais estão ligando de video, digo que quero atender, mostro a cria pra eles, todos ficam passando mal de amor. Ligo pra minha irmã e Caetano, ela está chorando e ele sorrindo muito! Nossa família cresceu! Todos transbordam!! Sigo com a minha hora de ouro transbordando com meu bebe. Tainá chora muito, fico emocionada de ver ela emocionada. Ainda me sinto muito a base da adrenalina! Meu corpo duro, minha perna tremendo, tudo doendo e ardendo mt lá embaixo, mas meu bebê tava ali e bem e isso que importa.
Luisa vem me analisar só visualmente eventualmente nessa primeira uma hora, ninguém mexe nem em mim e nem no bebê, esse momento é nosso. Mas era pra placenta querer dar o ar da graça e começar a sair, e nada. Passam nossa uma hora, Luisa me relembra o que tínhamos conversado nas consultas pré natal sobre intervenções e sobre a saida da placenta, era necessário retirar ela nessa uma hora, ou caso contrário aumentaria o risco de infecção. Ela me disse que tentaria apenas me dar uma forcinha, não conseguia mais cogitar a ideia de mexerem naquela região ainda, doia tudo! Ardia tudo! Foi puxar e ai ela doeu muito também, mas a placenta saiu e Dra. Luisa me mostra todos os detalhes dela! Tainá corta o cordão umbilical dele. Foi lindo!
Entrego Noah para a avaliação da Dra. Alana pediatra, Tatá segue com ele. Pronto, era a hora que mais temia, iriam avaliar meu períneo. Ai que medo. Tinha certeza que não tinha sobrado muita coisa por ali depois de tudo rs rs. Dra. Luisa havia me explicado sobre como seria essa hora nas consultas, era desconfortável pois ela olharia lá dentro da minha vagina, períneo e ânus (ai socorro). Ela me relembra que chegamos nesse momento e assim o fez. Mais dor, Meu Deus, não acaba. Coloca anestesia, dá ponto, anestesia não pega em alguns locais. Camille conversa comigo, de mãos dadas, me traz frutinhas e pão de queijo, Michelle me traz suco. Camille e eu conversamos sobre coisas meio aleatórias e tento descontrair da dor. Paro de contar quantos pontos estão fazendo. Só queria ficar perto do bebê de volta. Mas essa avaliação dele era fundamental também. Seguem suturando as lacerações e avaliando Noah. Começo a perguntar se estávamos no final, e até que foi. Ufa acabou! Agora só faltava a enfermeira limpar a região e todo o meu corpo para nos levarem pro quarto.
Enquanto isso, Camille, Taina e Renata estão lá pintando e carimbando minha placenta na folha de aquarela, ah que lindo!
A emoção podia acabar aqui né?! Mas Noah ainda ficou com uma alteração respiratória e precisaria ir para o berçário até se recuperar. Irei subir sozinha. Mas fiquei confortável, a dinda Tatá é fisioterapeuta pediátrica, poderia ir com ele, estava em boas mãos.
Subo pro quarto, e só recebo de volta meu pequenino por volta de 13:00 da tarde. Quando o tive de volta, ai sim desabei, ai sim senti o que achava mais puro e amoroso nesse momento, meu bebê ta bem, eu to bem, ele nasceu e eu renasci.
Todo o meu amor, gratidão e carinho a essas profissionais maravilhosas! Que juntas viramos essa potência feminina, dentro de uma sala de pré parto. Não teria conseguido sem vocês! Gratidão a minha prima Tainá, por junto comigo ao longo da gestação e do parto, conseguir me cuidar, me amar e me acolher, me mostrando a potência que somos como mulheres, e que ninguém nunca irá tirar a nossa força, porque ela vêm de um lugar único e somente nós mulheres o temos. Além disso, por me trazer a paz de poder contar 100% em tudo com vc, ainda mais depois desse parto. Eu e Noah te amamos muito! E aos meus pais por me ensinarem e reafirmarem ao longo da minha gestação, o verdadeiro papel de pai e mãe na vida de um filho.
