Clarice
Parto da Clarice Soares Carvalhosa
Nascimento da Laura e da Olivia
22/03/2019
Bem foi uma gestação gemelar saudável de duas meninas, didi, duas bolsas e cada uma com sua placenta. Logo que engravidei busquei Tamara do Fardo de Ternura para ser minha doula, pq eu já a conhecia e já tinha essa decisão antes de engravidar. Acho importante dizer que demorei 5 anos para engravidar, 5 anos de tentativas após ter parado o anticoncepcional e tivemos que recorrer a fertilização, tendo uma perda antes dessa gestação.
Os desafios então vieram desde antes da gravidez, muito desejada e planejada. Comecei a frequentar as rodas do Fardo, inclusive as de puérperas, ainda com 15 semanas. Já sabia que precisaria trocar de obstetra, pois na primeira consulta ela já marcou a data da cesárea mas eu realmente desejava um parto normal. E quando eu entendi a real possibilidade do parto normal, Tamara me sugeriu falar com Philippe Godefroy. Que decisão acertada! No início, eu ainda tinha dúvidas, mas seguia como se soubesse que conseguiria.
Meu marido foi se aproximando, ganhando confiança, participando das rodas que conseguia e fomos nos informando muito! Procurei terapia só para me dar forças para passar por esse processo, espantando fantasmas e medos da gestação, parto e puerpério.
Combinamos com o obstetra que a IG de segurança seriam 39 semanas e que com 37 começaríamos a estimular, caso nada acontecesse. Seria a semana após o carnaval. Dirigi e fiz pilates até a semana anterior, quando fiz também o ensaio de gestante com a querida Rita do Mareia foto e vídeo de parto, que também nos acompanharia no parto.
Passei o carnaval em casa, já quase sem conseguir ficar em pé e torcendo demais para algum sinal, pois não queria ter que induzir. As meninas estavam super bem e grandes, estávamos fazendo o acompanhamento com US no CDPI do Leblon com Carolina, médica indicada pelo obstetra, que foi uma pessoa incrível e que deu muita confiança para irmos até o limite.
Strepto negativo, plano de parto pronto (e enorme!), discutido e distribuído para equipe. Tudo arrumado em casa e decisões tomadas. Não iria avisar a ninguém quando fosse para o hospital, queria passar por isso só com meu marido e a equipe escolhida. Estava incrivelmente segura. Não queria nem minha mãe por perto, já estava num processo de reclusão desde a gravidez.
Tinha medo do puerpério e também de não conseguir me entregar ao parto, de ficar muito consciente. Tinha medo de como seria o caminho do parto e se conseguiria o parto normal, ainda mais que os casos próximas a mim não tinham conseguido.
Fui trabalhando isso e sabia que estaria bem amparada com a equipe escolhida. Na despedida de barriga, em Niterói, já com 37 semanas, eu estava com um pouco de cólica. Já havia uma semana que tinha saído um pequeno tampão. Também nessa semana comecei acupuntura para ajudar a induzir e começamos descolamento de membrana.
Saí da consulta coletiva e fui comer, mas tive muita cólica. Havia combinado de ir na maternidade que o obstetra estava de plantão para mais um descolamento. Com 2 cm de dilatação ele estava confiante que as coisas andariam naquela mesma noite. Só que não. Não senti mais nada. Segui com acupuntura e descolamentos, que por sinal já eram bastante desconfortáveis. Mas nada aconteceu. Conversei muito com Tamara e Philippe, estávamos bem próximos, ele indo na minha casa já algumas vezes para consulta domiciliar.
O plano era ter o parto no CHN em Niterói, mas com a chance de indução e não mais trabalho de parto espontâneo estávamos nos decidindo em ir para a Perinatal Laranjeiras. Após muita conversa e esclarecimentos vimos que o limite para a indução seria com 38+5, pois poderia durar ate 48h e assim nosso limite seriam as 39 semanas. Com 38+4 fomos até a perinatal, que não havíamos visitado, para fazer uma avaliação do desenvolvimento fetal. Estando tudo bem, seguimos com nosso plano de internar para induzir no dia seguinte cedo, com mudanças na equipe inicial pois os pediatras iniciais não poderiam ir para o Rio naquele dia.
Chegamos cedo na quinta feira na perinatal, 38+5 para a indução.
Foi muito difícil aceitar a indução, mas também não queria passar das 39 semanas e eu já estava muuito desconfortável, as meninas já cada uma com 3 kg e eu tendo engordado pouco, estava já fraca e cansada. Fui sem avisar ninguém, só eu e meu marido para encontrar a equipe. Fernanda (também doula do Fardo) e Philippe nos aguardavam para a internação, que diga-se de passagem demorou. Fizemos um cardiotoco e logo colocamos o primeiro comprimido de misoprostol. Meu medo era como as coisas aconteceriam com a indução, mergulho no desconhecido.
Não senti nada, Tamara chegou e fizemos alguns exercícios com a bola, rebozo e almocei. Hora do segundo comprimido, aproveitei para deitar um pouco depois do almoço. Levantei as 18h com uma leve cólica, a janta tinha chegado. Fui fazer xixi e percebi bastante líquido, achei que era mais um bocado de tampão que vinha saindo aos montes. Sentei na cadeira e… ploft, não tive dúvidas que era a bolsa estourando. Veio junto uma crise de riso e choro com a quantidade de líquido quente que escorria. Sentei numa toalha e ainda jantei! Avisamos a equipe e fui pro chuveiro, a princípio para me lavar. Logo comecei a ter umas cólicas. Mas em uns 10 minutos as cólicas aumentaram, em 30 minutos eu já gritava horrores, não deixava meu marido sair de perto pois precisava aperta-lo e daí por diante ja não lembro bem de nada.
A bolsa estourou as 19h e foram 12h de TP até o nascimento da primeira, Laura, que já estava encaixada e bem baixa há algumas semanas. Lembro que demorou a liberar a sala de parto, meu marido brigando com a enfermagem para liberar logo. Lembro também de gritar com alguém do hospital que veio perguntar se eu estava com dor! Kkk Não vi ninguém da equipe chegar, inclusive virou piada eu ter perguntado horas depois se Philippe estava ali, depois dele já ter conversado um monte comigo! Lembro vagamente de ter sido levada de maca para a sala de parto e só depois soube que meu marido atravessou o hospital de sunga…kkk
Minhas dores já eram além de qq limite que eu imaginasse existir e lembro de ter pedido para meu marido avisar ao obstetra para já trazer o anestesista, pois eu precisaria de analgesia!
Sei que fiquei na banheira, que fiz muito cocô 💩, que vomitei. Lembro muito da voz de Tamara no meu ouvido, que precisava dela ou meu marido o tempo todo comigo. Depois fui para banqueta, sentia muita dor e estava exausta, gritei sem parar. Houve parada de progressão, entramos com oxitocina e por fim no expulsivo também demorado precisamos usar o vácuo extrator. Estava muito segura com a equipe e fui aceitando as intervenções necessárias. Mas a dor era absurda, minha sensação é que foi o mesmo nível de dor e muito pouco espaçada ao longo de todo o período. Não conseguia nem pensar muito, mas lembro de ter pensado que minha mãe e avó haviam parido assim e as reverenciei. E também de ter pensado em tantas mulheres que optam por fazer cirurgia. Mas apesar de toda dor, não cogitava pedir ou ter que fazer cesárea. Em algum momento falei para Tamara que estava com medo da dor do expulsivo e ela me tranquilizou. Seu apoio foi fundamental, o tempo todo comigo, usando de palavras, aromas, toques, informações!
Finalmente, depois de muitas contrações, saiu minha menininha, que veio logo para meu colo, apesar do cordão curto. Coisa linda e cheirosa, nasceu super bem com 2,875kg e 47cm. Equipe super respeitosa em relação a tudo que coloquei no plano de parto. Nenhuma intervenção na bebê. Quis deitar e ela ficou comigo ali até reinício das contrações.
Todos achavam que seria a placenta, mas era já o trabalho de parto da segunda! Me sentia destruída, não sabia de onde tirar forças. Não aguentava mais ficar na banqueta e minhas pernas estavam muito cansadas. Mas não tinha o que fazer, senão enfrentar.
Então as contrações reiniciaram, inacreditável pensar que depois de já 12h de TP, tendo acabado de parir uma, iria começar tudo de novo. Acho que cheguei a perguntar o quanto eu sentiria de novo para o nascimento da segunda. Mas não dava tempo nem de pensar. Exaustão era a palavra. Todos ali estavam exaustos, não era privilégio meu. Já tínhamos passado a madrugada toda acordados, sem comer. Tive que voltar a buscar posição, ficar em pé, sentia que a banqueta já não contribuía muito pois doía demais meu quadril e períneo. Foram mais 3 horas de TP até Olivia nascer. Com bastante tensão inclusive. Os batimentos cardíacos de Olivia caiam a cada contração e recuperavam logo depois. O acompanhamento era bem de perto, eu já fraca e o TP evoluindo devagar. Uma hora lembro que quase desmaiei em uma das contrações e pedi para deitar. Ainda com oxitocina, em dose alta já, houve bastante movimentação na sala, se demorasse mais seria correria para cesárea. Parada de progressão e novamente necessidade do vácuo extrator. Nesse momento, meu marido que tinha ficado 3hrs de contato pele a pele com Laura já não aguentava ficar mais na sala. Fernanda, doula, apareceu também e foi apoiar ele la fora. Ele tinha participado muito mais do que dizia aguentar, cortou o cordão e tinha feito os primeiros cuidados com a Laura, mas agora ele estava estafado, e com medo. Olivia tinha que nascer agora. Mas as contratações demoravam. Eu só queria que ela nascesse e acabasse. Mas tinha que esperar, me acalmar e deixar meu corpo funcionar. Até que em mais algumas contrações ela veio. Eu deitada na maca, fazendo força usando de apoio tecidos pendurados no teto.
De um modo geral a saída das cabeças foram bizzarras, o vácuo extrator soltou nos dois partos e era bastante dolorido e tenso a colocação. Mas por outro lado, a saída dos corpinhos nunca vou esquecer! Que sensação gostosa! Que prazer, um misto de alívio e alegria!
Pari duas! De parto normal! Sim, várias intervenções e laceração grau 2. Mas tudo conversado e explicado, da melhor forma que poderia ser. Foi incrível!
Estava muito fraca, consegui comer umas frutas enquanto amamentava as duas pela primeira vez ali deitada na maca.
Depois de tudo terminado, nós já prontas para ir para o quarto, todos querendo descansar e comer, eu comecei a me sentir mal.
Fui atendida pelo plantonista e Philippe teve que voltar as pressas para me atender. Consequência da perda de sangue quase desmaiei, tremia demais, palida e fraca. Todos assustados. Precisei tomar duas bolsas de sangue.
Com muita luta de todos conseguimos que fosse no quarto e não no CTI e que as meninas não fossem para o berçário. Foi bastante estressante para todos.
Nesse momento meu marido avisou minha mãe do nascimento, ela veio então conhecer e cuidar das meninas no quarto enquanto nós dois conseguimos apagar por algumas horas. Seria aí o início do processo de digerir esse evento mais incrível da vida.
Ficamos embebidos em oxitocina por um tempo, só pensávamos no parto, pelo que tínhamos passado. Queríamos estar com a equipe e falar sobre isso com todos! As músicas da playlist são muito emocionantes ate hoje que quase nem conseguimos escutar. É uma experiência transformadora e de muita conexão. Digo ainda que ter passado por tudo isso fez o puerpério ser mais leve de alguma forma. Os pontos da laceração incomodaram bastante, assim como as dores no quadril e o sangramento, mas a melhora era diária e a satisfação enorme!
Sem dúvida a quantidade e qualidade de informações que tive e a equipe escolhida fizeram toda diferença! Tenham uma doula e escolham o obstetra a dedo! Sou eternamente grata por ter tido vocês comigo nesse momento!
