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Casa de Ternura - Acolher, apoiar e potencializar a sua história. A Casa de Ternura é um espaço de assistência à família da gestação ao processo de desmame.
Relatos de Parto

Renata Pimentel

Relatos de Partos - Renata Pimentel

Parto da Renata Pimentel
Nascimento da Isadora
21/09/2018

Minha filha mais velha nasceu em 2015. Na época, eu não sabia nada sobre nascimentos humanizados; a cesárea era uma forma habitual de se nascer na minha enorme família, onde o último parto normal foi em 1979. Assim, minha filha nasceu numa cesariana agendada, desnecessária e realmente violenta. Meu único desejo era poder entrar em trabalho de parto, mas nem isso me foi permitido pelo sistema. E eu só me dei conta da violência que eu e minha filha sofremos depois de tudo terminado, quando passei (e ainda passo) por questionamentos e sentimento de culpa.

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Já em 2018, grávida da minha caçula, eu decidi que seria tudo diferente. Me muni de informações, me consultei com diferentes obstetras apoiadores do parto normal humanizado e contratei uma doula – ou melhor, um coletivo de doulas. Participei de rodas de gestantes, conheci mulheres fortes, inseri meu marido no mundo do nascimento respeitoso. Foi uma gestação saudável e tranquila. E eu estava certa do meu parto normal. Mas…

Uma ultrassonografia feita na reta final mostrou um quadro que acendeu o alerta para minha obstetra. Eu estava com 40 semanas e 4 dias quando ela me chamou para conversar sobre o resultado daquele exame. Me explicou todo o seu ponto de vista sobre o quadro, respondeu a todas às minhas dúvidas e foi categórica sobre a sua opção pela cesariana. Eu perdi meu chão. Eu não conseguia acreditar. Como eu poderia estar vivendo aquilo, se eu me sentia tão bem e tão forte? Eu não era merecedora de parir minha filha? Eu simplesmente não conseguia compreender. Essa consulta com a médica foi realizada durante algumas horas, pois ela me atendeu no hospital onde estava de plantão. Foram horas de uma tristeza inexplicável. Era mais do que frustração; era o fim da linha pra mim. Eu ainda não consigo explicar com exatidão aquele sentimento, mas a única comparação possível pra mim é a notícia da morte de alguém muito amado; sim, foi essa a sensação que tive, um vazio no coração, comparável ao desamparo da saudade eterna.

Durante aquelas horas, eu estava acompanhada pela minha doula Camille. Ela se ofereceu para me acompanhar na consulta para que todas as dúvidas sobre a ultrassonografia fossem esclarecidas e, honestamente, eu não sei como eu teria reagido se não a tivesse ali comigo. Eu não sei se teria conseguido me manter centrada e lúcida.

À noite, meu marido chegou ao hospital. Toda a explicação foi repetida para ele – e para mim, pois àquela altura eu já não conseguia raciocinar. A cesariana foi agendada para a manhã do dia seguinte e a obstetra, sempre tão calma e carinhosa, me garantiu que tudo seria feito para que a minha filha nascesse cercada de respeito. Me despedi da Camille e me assegurei de que ela estaria no dia seguinte comigo, pois eu precisava dela, mesmo sendo numa cesárea. No carro, indo pra casa, me bateu o desespero, o medo de reviver a minha primeira cesariana, e eu chorei mais. Fui dormir por volta das duas da madrugada, com a cara inchada de tanto chorar de tristeza.

Na manhã seguinte, fui digerindo os fatos com o passar das horas. Não avisei à minha grande e festeira família, pois eu não estava feliz e não queria agito e animação ao meu redor.

Já no centro cirúrgico, o anestesista e o pediatra vieram se apresentar. Toda a força que recebi das doulas, ao longo da minha gestação, me veio ao peito. Conversei com os dois médicos, segura de tudo o que eu queria para o nascimento da minha filha. Ambos já tinham lido o meu plano de parto, que foi repassado a eles pela obstetra, e aquilo me tranquilizou demais.

A cirurgia foi exatamente do jeito que a minha obstetra havia me prometido. Todo o meu plano de parto foi respeitado: não fiquei sozinha, minha doula e meu marido estavam sempre comigo, não fui sedada, não fui novamente amarrada e nem empurraram a minha barriga, eu estava olhando para a minha filha no exato momento em que ela nasceu e ela veio direto para o meu colo, tivemos a nossa hora de ouro e ela mamou ali mesmo, ela não foi aspirada e nem movimentada com rapidez, o cordão não foi cortado de imediato, tivemos música e luz baixa, eu toquei a minha placenta e pude levá-la comigo, minha filha não ficou sem mim ou sem o pai em nenhum momento.

Eu fiquei em êxtase! No quarto do hospital, eu revivia aquela sensação como se eu tivesse ganhado na loteria. É impossível explicar como puder viver sentimentos tão conflitantes, de tristeza e de alegria extremas, em menos de 24 horas.

O resumo de toda essa história é o valor do respeito à mulher ao seu bebê. Sim, um nascimento respeitoso é possível, mesmo em uma cesárea. Eu nunca vou me esquecer daquele momento, de ter sentido o vérnix da minha filha e de ter presenciado a primeira vez que ela abriu os olhos e me olhou. Foi maravilhoso me sentir em segurança e ser respeitada, algo que todas as mulheres e seus bebês merecem.

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