Juliana Castro
Oi, meninas. Envio abaixo o meu relato de parto. A verdade é que estava postergando esse momento porque enviá-lo significa dizer adeus a esse grupo. E, nossa, como isso é difícil. Como é difícil a gente largar a mão de quem trilhou com a gente o caminho mais lindo e florido da nossa vida. Aproveitem os encontros on-line, curtam o processo e a barriga. Vcs sentirão falta! Obrigada doulas queridas. Obrigada, @Luara Lima, com quem descobri ter muitas afinidades. Além de minha anja no parto, ainda me ajudou a finalmente conseguir amamentar meu filho. Nunca terei palavras suficientes pra te agradecer.
Li uma vez num post do meu obstetra (o maravilhoso Pedro Melo) que parir era como uma travessia. Podemos estar acompanhadas pelx companheirx ou por quem quer que seja – e, sim, isso é importante – mas, vamos percorrer um caminho que só nós mesmas podemos trilhar. Nós somos as únicas protagonistas desse momento. No fim, somos nós, com nossos medos e inseguranças. Mas também somos nós, com toda força e poder que temos, ainda que não acreditemos nisso.
Minha travessia começou numa segunda-feira, dia 23 de maio. Passei a gravidez toda querendo tirar umas fotos com o meu marido na UERJ, onde fizemos faculdade e nos conhecemos há 17 anos. Ia adiar a ida mais uma vez – como fiz a gravidez inteira. Mas, naquele dia, me bateu de ir logo, afinal estava com 39 semanas!!! (Esse preâmbulo é para dizer: façam logo tudo o que querem fazer e não deixem para depois, como eu, achando que o bebê vem só com 41 semanas!!)
Era pouco mais de 17h quando senti a primeira pontada ao sair da UERJ, algo meio estranho que eu ainda não tinha sentido. Fiquei em alerta. Entre 19h e 20h, senti três contrações e entendi que minha travessia havia começado de alguma forma. Não houve perda de tampão mucoso e nem rompimento de bolsa. Aquelas dores eram meus primeiros sinais de que o amor da minha vida se aproximava.
Depois das 20h, as contrações ficaram mais fortes. Estavam, claro, bem irregulares – com intervalos de quatro, cinco, sete minutos entre uma e outra… Era raro, muito raro, ter um intervalo de mais de dez minutos para algum descanso. Para piorar, a cada contração, ia ao banheiro fazer xixi, o que diminuía meu tempo de descanso.
Entrou a madrugada de terça-feira, dia 24 de maio, e, além da proximidade entre uma e outra, as contrações ficaram cada vez mais fortes. Para a minha angústia, nenhum sinal de que iam se tornar mais regulares. Foram boas horas no chuveiro, bola, exercícios e de questionamentos do tipo “onde eu fui amarrar meu burro?”.
Pela manhã, fizemos uma chamada de vídeo para a santa Luara das causas impossíveis, mais conhecida como uma das doulas desse grupo lindo, que veio ao meu encontro. E assim passamos toda a manhã e tarde de terça-feira, dia 24, tentando aliviar a dor. Quando se aproximava de 17h, quase 24 horas depois do primeiro sinal, ligamos para o obstetra para saber se eu poderia ser examinada. Sou jornalista, não ter informação sobre o estágio do trabalho de parto eu estava me angustiava. Com quase 24h de dores, eu estava com quantos centímetros de dilatação? Faltava muito ou faltava pouco? Para mim, pior do que ter informação ruim é não ter nenhuma.
Às 18h, já estávamos na Perinatal de Laranjeiras. O obstetra me examinou, disse que estava com 4 cm, que o colo do útero estava um papel e o bebê, embicado para sair. Tudo conspirava a favor, menos as contrações que não se ritmavam.
Aí acho que entra o nosso poder de decisão, do que queremos ou não e do conhecimento do nosso corpo. Eu sabia que não aguentaria mais uma noite sem dormir – já não havia dormido nas noites anteriores por conta da barriga – e com aquelas dores. Pedro entendeu meu apelo e disse que eu não passaria mais 24h sentindo dores. Rompemos a membrana para ver se o trabalho de parto embalaria. Combinamos que eu voltaria para a perinatal às 21h30.
Chegamos à maternidade às 22h. Nada de ter uma regularidade nas contrações. Rompemos a bolsa e… nada!!!
Até que depois de 1h da madrugada da quarta-feira, dia 25 de maio, 30 horas de dores depois, eu finalmente me rendi. Estava longe dos 10 cm e, mesmo que chegasse neles, não conseguiria ter forças para o expulsivo. Faço bastante atividade física e conheço meu corpo. Eu precisava descansar. Pedi analgesia, mais para dormir do que pelas dores. Mas, claro, ter uma trégua delas ia ser ótimo.
Dormi pouco menos que duas horas e acordei possuída pelo ritmo ragatanga! Disposta a correr uma maratona (ok, tem uma exagerada aqui). Agachei até o chão achando que era a Carla Perez nos tempos do É o Tchan, dancei Luz de Tieta, do Caetano Veloso,e por aí vai.
Voltou o obstetra e sentei na banqueta para ser examinada e, finalmente, saber se havia ganhado mais alguns cm. Achava que, depois do meu descanso, estaria com uns 7, com sorte 8 cm.
Pedro disse que na hora do expulsivo viria uma vontade de fazer cocô e que não era para segurar. Aí eu pedi pra ir ao banheiro, afinal, antes fazer as necessidades lá do que ali. E ele falou de bate-pronto: Se vc for ao banheiro, o bebê pode nascer no vaso sanitário. E eu fiquei: como assim????!!!!
Eu sai de 4cm/ 5cm para 10cm!! Meu corpo só precisava descansar! Entramos no expulsivo, eu estava animada com a evolução pós anestesia. Até conversei com meu filho e disse para ele que o Brasil estava um caos, mas que, em outubro, ia levá-lo para votar comigo, mandei um Fora Bolsonaro (Luara tá aqui para confirmar esse momento cômico). Sorry pelo detalhe que nada tem a ver com a dor do parto, mas tinha que contar isso pra vocês.
Voltemos ao parto: empurrei umas três vezes (pelo que eu lembro) até que, às 4h39 da quarta-feira, dia 25 de maio, um dia antes da DPP, Gael veio lindo e pleno para esse mundão iluminar a nossa família. Foi recebido nos braços do pai, que o passou pra mim. Nunca nada vai apagar essa memória. Havia feito a minha travessia. Ou, como gosto mais de dizer, atravessei o portal para não mais voltar. Desse lado, tem menos horas de sono, tem exaustão, tem choro, mas também tem um amor absurdo. Confiem em vocês, vocês são capazes. Não temam a travessia. Vocês são as protagonistas! A travessia é o meio, não o fim. Espero vocês no outro lado do portal. O lado de cá é ainda mais intenso.
