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Relatos de Parto

Aline Nunes

Relatos de Parto - Aline Nunes

Relato de parto – Nascimento da bebê Clara
Mãe: Aline
Pai: Felipe 
Parto: 04/5/19

Mãe: Aline. Relato de parto – Nascimento da bebê Clara

Primeiro, obrigada! O fardo participou de forma impar da minha gestação. Da gestação da “Aline-mãe”.  Doulas, gestantes, maridos, bebês, músicas, textos, lágrimas, risos , relatos, partilhas, tanta energia envolvida, cada encontro, cada postagem : um passo mais perto da maternidade que acredito – com apego, amor e contato.

Eu sempre acreditei que parto é um evento da gestação.Então busquei me conectar ao máximo, sentir minha bebê. Meu foco não era só o parto. Temia mais o puerpério e amamentar que parir. 

Parir tinha mais haver com respeito, para mim algo ancestral, como acessar minhas origens femininas (descobri depois que Clara nasceu, que minha bisavó era parteira e foi quem fez o parto de meu pai). 

Me sentir, esse era o foco!

Sabia que estava grávida com menos de um mês. As mudanças eram incríveis logo no início já sabia que meu corpo já não era mais só meu. 

Eu que sempre fiz esporte, subitamente não tinha mais desejo de fazer. Paladar, olfato tudo estava mudado. Seguia amando, mas não queria entrar na minha vibe frenética de exercícios … então, parti pra natação. Engordei mais no início da gestação (acho que pela falta de exercício intenso). Meditei em casa, fiz exercícios de psicoterapia corporal… e seguia a minha terapia!!!

Clara foi uma gestação muito desejada! Uma gestação bonita e suave! (Mas também com azia … me visitou algumas vezes )

Eu sempre quis ser mãe e queria gestar. Felipe e eu combinamos de tentar em 2018.  Lembro de uma conversa com

Felipe sobre o parto (e ai começou nossa busca), nessa conversa ele deixou claro que não iria participar do parto . Que não queria me ver sofrer. E eu disse “você vai me deixar sozinha, sangrando com estranhos?” 

E aí começou nossa procura para um caminho possível para nós 3.

Sei que o parto era meu, mas eu acredito que o parto é sim um evento feminino, mas é familiar. É pra ser vivido com quem se ama. 

E assim, propus a Felipe vermos os filmes renascimento do parto (ele não conhecia ) e logo depois combinamos de conhecer o fardo. Reinventar nossas crenças e medos.

A escolha da doula e do obstetra respeitou muito essa sensação de intimidade. Eles entrariam num lugar quase sagrado pra mim. 

E todo encontro é destino. 

Precisava ali ser Camille e Philippe. Nunca me imaginei com obstetra homem. Mas era como se fizesse as pazes (num cenário feminino) com o masculino! Meio louco, mas assim me senti. E Camille, que “veio ao acaso” (todo encontro é destino), trouxe a suavidade e segurança que precisava. Força e delicadeza ela me brindou! 

E eu tão acostumada a fazer tudo sozinha , aprendi um mundo de coisas nesse processo. Minhas sombras me visitaram em todo processo! Medos, angústias… 

Semana do nascimento :

Durante a semana, Clara tinha começado um movimento novo… 

Primeiro a azia que me visitou um tanto na gestação tinha ido embora … o que me deixou feliz e segura que ela estava posicionada mais pra baixo. E começávamos gradualmente o caminho do nascimento (a previsão era final do mês de maio)

A semana estava lotada de compromisso: quarta :médico; quinta:despedida de barriga; sexta: cineminha (tava louca ver vingadores); sábado arrumar a mala e fazer umas alterações no plano de parto ; e domingo às Fotos de barriga com a Rita (adiada algumas vezes porque Felipe precisou viajar muito nos últimos meses)… Por fim, terça a consulta com Camille em casa. Última etapa da preparação !!

Bom, mas eis ai o maior ensinamento: não há roteiro quando se fala em gerar e parir uma vida …

Na segunda e na terça começou um sangue leve. Não sentia dor. Mas os ventos da mudança começam a soprar. O sangue era Rosa bem clarinho. Avisei a Camille e quarta (feriado) já tinha consulta com Philippe. A consulta foi incrível. Era a primeira vez que Felipe conseguia ir comigo e foi uma super consulta. Falamos dos medos do felipe em relação ao parto. 

E por fim, Philippe falou uma frase que achei linda.  Ele perguntou a Felipe se o medo era de sangue ou algo assim. Ele respondeu que o medo era me ver sofrer . O obstetra respondeu ; “a dor do parto não é sofrimento. Diferente das dores que conhecemos, essa dor tem sentido e função.”

Na quinta a despedida de barriga foi potente … Clara estava completamente animada dentro de mim. Felipe e eu saímos muito mexidos. Eu me sentia tão plena, tão apaixonada pela minha barriga, por gestar… Por ter tido a sorte de gerar, não há processo mais criativo que esse!

Na sexta, mandei mensagem pra Camille e disse isso. Ela me responde que teve que respirar varias vezes pintando minha barriga … que realmente sentia a movimentação dela. Essa energia!

Sexta trabalhei e decidi não ir ao cinema … já não conseguia mais comer (acho que antes das 18h comi a última vez) , tava me sentindo diferente.

Não estava com medo! Na verdade, a minha pior sombra e medo era algo acontecer a Clara. Sabia que o parto seria doloroso em alguma ordem (a gente não sabe a dimensão)… 

Vimos um filme em casa. 

Felipe dormiu (lá pras 23h)  e minha saga começou…

Fase latente:

Era super irregular , mas era contração. Ela vinha devagar e crescia … uma onda!

eu pulava da cama e andava pela casa. Tomei alguns banhos, água quente na lombar, meditei com o GentleBirth, respirei… as horas iam avançando. Dolorido. Os intervalos era longos. Olha de relance no relógio. O dia amanheceu e a dor não cedia. Eu estava todo tempo preocupada com o sangue. Enquanto estava rosa claro estava tudo ok na minha cabeça.

E eu achando que eram pródomos. mas já estava na fase latente …

E pensava, vai passar … a dor vinha, passava (respirava, deitava) e aí tudo de novo..

Tentei comer à noite, mas vomitei … seguia monitorando o sangue que tava rosa claro, mas menos aguado que o início da semana.

Pela manhã mandei mensagem pra Camille e Philippe. Ainda me achando exagerada … afinal, ela só nasceria em fins do mês ! Avisei da dor, mas que estava bem!

Felipe  acordou e falou pra eu relaxar: Tentar deitar … e assim tentei. mas aí tudo mudou. 

Fase ativa:

A dor parecia uma cólica forte (nunca tive muita cólica na vida, mas me lembrava isso: cólica aguda, mais forte) … Diferente da anterior, agora não conseguia encontrar forma: Andava, sentava no vaso pra agachar, os intervalos diminuíram também. Sabe maratona quando a gente passa da metade da prova, nem é a dor dos últimos km. Nem a disposição dos primeiros … 

Por voltas das 9:30, um sangue bem vermelho saiu. Avisei Camille , que pediu foto. 

Logo depois Philippe me ligou e me falou que conversou com Camille. Que achava melhor ir ao hospital pra fazer uma ultra e certificarmos que estava tudo bem. Ele estava no Rio. E a backup – Raquel – iria me encontrar no hospital. (Havia decidido o CHN, mas esse exame precisaria ser no hospital icaraí).

Pedi a Felipe pra ir deixar o dinheiro da faxina no Consultorio que tinha esquecido !!! (Não me pergunta pq fiz isso…). Preocupada com isso nesse momento … agora faz zero sentido!

Tomei banho. (E a “cólica”não melhorava) 

Pedimos uber, mas sábado em icaraí : caos de trânsito! A pior parte para mim foi o uber. Trânsito lento! Eu querendo gritar , matar o uber, Felipe, o trânsito … levaria mais tempo pra chegar que pra parir (esse exagero senti lá). Desespero (olhei pouco para o motorista. Mas dado o clima de tensão , acho que ele também ficou desesperado )

Eu saí só com cartão de gestante e documentos… veja : ia só fazer um exame e voltar pra casa !!! 

Cheguei lá, dei entrada na emergência e esperei a Raquel. De novo, sou uma pessoa de sorte (sempre digo isso). E ela era incrível. Colocou a mão na minha barriga e disse : você tá com contração! Isso não é cólica! Quando me examinou, me disse que teria que fazer toque. Eu permiti. E ela me disse você está com 7cm de dilatação. Você não tá com dor?

Eu estava … mas não sei explicar … sabia que era uma dor diferente … Mas eu, que sempre me achei fraca, que não sabia lidar com a dor, vi ali uma nova mulher (ou percepção ) nascer…

nessa hora ela me perguntou se queria ir pro CHN ou ficar . (Não entraria em outro carro e trânsito)

Acho que por volta de meio dia entrei na sala de parto: não avisei a fotógrafa, não falei com Camille mais, não abri minha playlist que fiz com amor, não tinha plano de parto ou o top bonito pra as fotos…

Tínhamos Felipe, Clara querendo vir pra esse mundão e sair do forninho e eu. 

Raquel me perguntou se queria ir pra banheira. Minha resposta foi sim (amo água, amo mar…) e dali não sai mais. 

Luz baixa, ambiente silencioso …Felipe se trocou… e estávamos ali, só nós dois. (A Raquel estava ao lado e Guilherme o pediatra se apresentou e também estava próximo, mas não na sala).

Eu gritava em plenos pulmões : meus diafragmas todos se abriam (garganta, cintura, períneo). 

Felipe tinha dificuldade com meus gritos. E me disse isso. Esse ponto era insuportável pra ele. Não sei explicar o que houve com ele, mas todos ali nos redescobrimos e em alguma hora ele passou a me apoiar. A energia dele tinha mudado. Agora sim, estávamos todos inteiros ali. Ele me lembrava de nos intervalos respirar … pegava na minha mão!! E toda vez que a contração vinha: Apertava a mão dele… (houve uma hora que quase mordi o braço dele. Cheguei a cravar os dentes! Mas não queria machucar ele…)

Quanta transformação vivemos os dois (ele falando sobre o parto é emocionante). É difícil contar, é tudo tão à flor da pele. Não tem consciência.

Eu estava presente, sim estava conectada (não pra controlar), a presença era sentir. Eu realmente estava aberta . Uma sensação que me deu medo e me encheu de beleza. Era forte e suave . Essa seria a descrição do meu parto para mim.

Uma transformação completa! Literalmente de dentro pra fora.

Em um momento, Felipe disse “seus anjos chegaram”.Ali estavam Philippe, Camille. E mais a Rita.

Pronto! Estávamos completos!

Camille trouxe som, cheiro e leveza. (Escrevo isso e meus olhos enchem de lágrimas). 

As músicas que pareciam da minha playlist (sintonia né) o cheiro de mato (amo ar livre). Não sei que essência ela colocou , mas eu estava livre. Era invadida pelo cheiro de infância … eu era uma mescla do som, do cheiro, da água e da sensação de proteção e amor que sentia.

Eu sentia medo e repetia isso muitas vezes. Não sei explicar o medo. Era celular. Era intenso. 

Camille me sugeriu trocar a posição … troquei para quatro apoios. Eu tinha medo de me virar. 

não sei se na mesma hora, ou logo depois, já não tinha mais vontade de gritar. Comecei a fazer força. O som da minha voz mudou. A focalização era outra.

Em todo processo, eu sentia Clara. Sentia ela em mim. Sentia a gente se despedir de uma forma de amar e viver. Cada movimento dela, ela tava chegando. No tempo dela. No dia em que ela escolheu. Da forma como nós precisávamos viver isso!

Eu ouvia o que Phillippe, Camille e Felipe me falavam. Mas não sei se eles conversavam e não me preocupei.

Meus olhos estavam fechados! Eu sentia …

Camille me massageava , sentia na minha lombar. Era bom! Um calor … 

Mas perto do fim é uma pressão, jurava que tinha feito cocô. 

O medo no expulsivo aumentou. 

Senti Clara coroar foi tudo tão suave, mas dolorido. Parecia câmera lenta. Ela tava chegado e eu dizia pra ela vir, que não importava se era antes da data prevista – se era a hora que ela escolheu, que ela podia vir! 

Ela saiu gradativamente a cada contração um passo a mais. Parte por parte! Dor e uma sensação incrível no meu peito.

E enfim, nosso encontro… Ela estava dentro da água. Minha sereia. 

E quando ela saiu da água, o melhor cheiro do mundo (sério, me senti mamífera total: eu lamberia ela 🙈😂).

Só lembrava da Tamara : “cheira gente ; é incrível o cheiro”!!!!!!!

Gente, é viciante !! Cheirei e abracei… e tinha vernix no cabelo, no corpo, na orelha kkkk

Linda demais:  Cabeluda 😂… talvez a fonte da azia (diz a lenda)

O cheiro do amor 💕 

Ficamos ali… respirando o amor mais doce que já vivi.

Felipe cortou o cordão , eu quis tocar e sentir ele pulsar.

E Felipe que não queria ver parir, ouvir meus gritos, me ver sofrer , cortar cordão, … pois bem, parimos um novo  homem. Ele era outro! Ele foi incrível. Viu até a placenta ser expulsa.

Ele ficou com ela , enquanto sai da banheira.

O pediatra me explicou que Clara nasceu com um desconforto respiratório e ela teve que ir para Neonatal.

Ficamos mais um tempo juntas, mas não pude dar peito a ela. Já que estava com desconforto.

Estava tão inebriada que ali nem atinei … aproveitei e abracei ela … ela era incrível 🥰

Pari a placenta … sentia mais incômodo. Demorou um pouco mais para a placenta sair. Camille fez uma visualização bonita.

Felipe ficou com ela todo tempo!

Tive uma pequena laceração sem pontos. 

Clara nasceu com 36+4 semanas (segundo a primeira ultra, segundo a última menstruação seria 37+1).

Passado tudo pensei porque Clara veio antes. Acho que clara atuou no nosso campo, veio antes porque estávamos (Felipe ainda mais que eu) tensos dele viajar a trabalho  e não estar aqui no momento do parto. (E realmente Felipe viajou um tanto grande em maio)

Penso que talvez isso tenha feito ela vir um pouco antes… Veio para ser recebida por nós dois! 

Puerpério e amamentação

Camille me ensinou a ordenhar e massagear meus seios logo após o parto. Isso foi essencial! Já que Clara não estaria ali em livre demanda.

Philippe , Raquel , Guilherme e Camille mandaram mensagens e acompanharam toda a semana que possamos com Clara. Eu super preocupada com pagamentos e eles foram muito incríveis.

Eu tinha tido um sonho sobre meu parto, umas semanas antes, e contado a Clarissa (que também faz parte aqui no fardo). Nesse sonho, meu parto era rápido e bonito, mas não via Clara. Me sentia sozinha. Por algum motivo eu ia pro quarto e ela não.

Clara ficou 7h com auxílio para respirar e acabar com desconforto após o nascimento, comum em Prematuros. 

Eu que queria que ela sofresse o mínimo de intervenção , vi minha pequena ser furada , examinada algumas vezes. E não foi fácil. Meu maior medo …

Enquanto estava com o Cpap, não  mamou. Estava com soro glicosado. 

No domingo, fui a neonatal e pedi pra amamentar (eu precisei ir e pedir! Ninguém me ofereceu ou ali me orientou) . Uma técnica me disse: “difícil ela querer  peito, não quis a mamadeira”. Respirei fundo e disse que queria tentar… e foi lindo! Suave como ela. Delicada e forte a nossa primeira mamada. 

Dar de mamar e sintonizar as nossas batidas de coração. É um resgate com colo da sintonia da barriga.

E durante a uma semana que ela ficou lá ela só mamou peito (com exceção da madrugada que era mamadeira). 

Até a terça fiquei internado no hospital … E tranquila, segura que teríamos alta. Mas na terça ela começou a ficar com icterícia.

Foi o pior dia entrar plena num hospital e sair de mãos vazias é triste demais 

Neonatal é um deserto demais.

Lembro que chorava tomando um café na cafeteria. Tomando força para ficar até as 22h lá e dar de mamar. Foi a primeira vez que a tristeza se fez presente. Acolhi minhas lágrimas … e nessa hora uma mulher passou por mim , parou na mesa que estava (chorando) e me disse “sei que deve ser difícil, mas vai dar tudo certo! Fica tranquila!”.

Eu já disse: sou uma pessoa de sorte!

Mas Felipe e eu íamos todos os dias e ficávamos sentadas em frente à incubados , por fim, (já disse que tenho sorte) encontrei boas técnicas e me deixavam ficar com ela direto no colo. Dar peito!

Meus pés inchavam, estava cansada mas ficava olhando e repetia! “Filha eu estou aqui e estarei todos os dias! Até irmos pra casa juntas”

A apojatura aconteceu por volta da terça também! Meus peitos ficaram gigantes e vazavam leite … 

Nesse dia, eu chorei! Chorei por Clara, chorei por mim. 

Por me lembrar da história de meu nascimento. 

De ter ficado internada recém nascida com icterícia. Meus pais eram jovens  e o hospital estava tendo muitos óbitos de bebês … meus pais, então, assinaram a alta-revelia… e dias depois fui internada em outro hospital. Hoje acho que minha mãe teve um baby blues e fiquei internada sem ela Conseguir ir me ver.

Por vezes, pensei em pedir a alta revelia de Clara. E por vezes me lembrava : que essa era minha sombra me visitando!. E que essa era a chance de me curar e permitir que Clara tivesse uma história com final diferente da minha.

Foi intenso. Ela estava bem. Mas me partia o coração saber que a vida dela começava assim. Chorei isso todos os dias!

Mas nós três seguimos amorosos e fortes. Juntos naquele hospital!

E na sexta veio a alta!

Clara não pegou chupeta! Não seguindo com fórmula …

E até aqui a amamentação exclusiva …

Clara nasceu com 51cm e 2975. No primeiro mês ela cresceu e estava com 54,5 e 4,05kg.

E seguimos em plena transformação : recém nascido, recém mãe e recém pai.

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