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Casa de Ternura - Acolher, apoiar e potencializar a sua história. A Casa de Ternura é um espaço de assistência à família da gestação ao processo de desmame.
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Casa de Ternura - Acolher, apoiar e potencializar a sua história. A Casa de Ternura é um espaço de assistência à família da gestação ao processo de desmame.
Relatos de Parto

Eduarda Bainha

Relatos de Partos - Eduarda Bainha

Maternidade Maria Amélia
04/03/2019 13:58
Peso: 3.330kg
Altura: 49cm

Relato de Parto do Bento

O meu processo de parir começou com a escolha de ter meu filho em uma Casa de Parto, um lugar acolhedor que preza pelo parto natural. Quando consegui minha vaga na única casa de parto do SUS do Rio de Janeiro, me senti a mulher mais sortuda do mundo. Passei a gravidez inteira sonhando e visualizando meu parto naquela casinha rosa cheia de amor.

Conforme minha data provável de parto se aproximava, as consultas se intensificavam e a minha tentativa de controle emocional tb. Preparava-me a cada dia com meditações, leituras, consultas com o coletivo de doulas… Até que a data provável chegou e o meu trabalho de parto não.

 Na consulta das 40 semanas tive a notícia de que só podem parir lá as gestantes que não ultrapassam as 41 semanas, e se em uma semana eu não entrasse em trabalho de parto naturalmente, eu seria encaminhada a uma maternidade para a indução. Logo, a ansiedade, o medo e a frustração começaram a tomar conta de mim. Eu já não queria mais meditar, já não lia mais sobre nada, apenas passava os dias deitada esperando algo acontecer. 

Pois é, os dias se passaram e nada aconteceu. As contrações não vieram. A bolsa não estourou. O colo do útero não afinou. E a frustração tomou conta de mim de vez. Não sei quantas vezes chorei. 

No dia 02 de março, quando completei as 41 semanas, fui até a Maternidade Maria Amélia, já que não poderia mais ter meu tão sonhado parto na casa de parto, para dar início ao processo de indução. Descolaram a membrana e me liberaram pra casa. A médica disse que se nada acontecesse em dois dias, eu deveria voltar para internação e a indução com remédio. “Mas fica tranquila – ela disse – vc vai entrar em trabalho de parto.” 

Dois dias se passaram e nenhum sinal de parir. Liguei pra Camille, minha doula maravilhosa e disse que deveria voltar pra maternidade para internação e indução, mas que iria só ao fim do dia. Reorganizei as malas da maternidade para uma internação mais longa do que o normal, falei com a família, e quando foi umas 17h fomos eu e meu companheiro Antonio para a maternidade. No atendimento a médica fez um toque e disse que eu estava com 3 cm de dilatação mas com o colo do útero ainda grosso. Fez outro descolamento de membrana e me explicou que eu faria o cardiotoco e que se tudo estivesse bem, iria me internar. 

O processo seria: ultrassom, introdução do misoprostrol na vagina e então, parto. 20 minutos depois a enfermeira me chamou com um sorriso no rosto e disse: temos vaga pra indução! Vamos começar agora! 

Não sei descrever o que eu senti. Medo, muito medo e uma felicidade enorme por estar perto de conhecer meu filho. Lembrei de todas as vezes que ouvi que parto induzido dói mais. E lembrei da minha irmã falando: vc não conhece a dor. Então a sua dor será a necessária pro Bento nascer. Respirei fundo e subi para o andar das salas de parto com um frio na barriga e me colocaram numa espécie de enfermaria para indução. Fiz a ultra e então introduziram o remédio às 20:30. A médica me disse q iam repetir o processo a cada 6 horas até o trabalho de parto começar. Imaginei que aquilo fosse demorar e me virei de lado na maca, na enfermaria, pra tentar dormir um pouco. Não deu. 

Fui invadida por uma cólica fortíssima e fiquei quietinha esperando pra ver o que ia acontecer. Às 21:30 levantei e pedi ao Antonio pra me acompanhar no banheiro e na volta, senti uma dor absurda… me abracei com ele e gritei! Era a primeira contração! Respirei fundo e sorri: Tá acontecendo – eu disse pra ele! 

Voltamos para a área de internação e quando cheguei, a tal dor de novo! Olhei pro Antonio e falei: pega meu celular, vamos contar as contrações. Elas começaram a vir de 2 em 2 minutos e eu, abraçada a ele, andava pra cima e pra baixo nos corredores do hospital… Quando a dor vinha eu gritava, respirava e continuava andando. Pensei: isso vai ser rápido! Uma hora depois a médica veio me examinar e o toque revelou: 3 cm! Os mesmos 3 cm de antes. Eu pensei: como assim? E essa dor toda a cada 2 minutos? Antônio me abraçou e disse: vamos continuar andando! Continuei nesse vai e vem por mais 1 hora até o próximo toque, uma hora depois: 4 centímetros. Comecei a perder o humor e pedi a médica para, por favor, me levar para a sala de parto pq eu queria um chuveiro quente! A partir daí não sei mais quanto tempo se passou. Pedi ao Antonio para chamar a Camille. Lembro de ver ela mandar uma mensagem pra ele dizendo que não estava conseguindo chegar. Era domingo de carnaval, Sapucaí em festa e eu aos berros nos corredores da maternidade! 

Quando finalmente liberaram a sala de parto fui direto para o chuveiro e a água simplesmente não esquentava! Me deu uma vontade de chorar, quando do nada surge a Camille, como um anjo, e consegue esquentar a água! Alívio da dor…e as contrações continuavam a cada 2, 3 minutos… Eu não conseguia mais falar. Nem descansar. Lembro da Camille me oferecendo várias alternativas de posições e eu experimentando o que me deixava mais confortável. Lembro dos cheiros dos óleos essenciais que surgiam e lembro das massagens na hora da dor… Tudo como um leve refresco para aquela cena interminável! Alguma hora que fui para o chuveiro, olhei pela janela e vi que estava amanhecendo e nessa hora o desespero tomou conta de mim. 

Já haviam se passado pelo menos 10h de contrações praticamente sem intervalos, e eu ainda estava com 5, 6 cm de dilatação. Conversei com Antonio e com a Camille, disse que eu estava muito cansada e pedi analgesia com um sentimento de frustração imenso! O parto sonhado ia cada vez mais pra longe de mim… escorria de mim sem o menor controle. 

Após a analgesia, os batimentos do Bento diminuíram. Eu ali, deitada na maca, como um sonho ruim… meu companheiro do meu lado com olhar assustado e a médica fazendo o cardiotoco… eu não entendia direito o que estava acontecendo até que a medica disse: não estou segura com esse resultado. Vou estourar a bolsa para ver se tem mecônio. Olhei pro Antonio, ele balançou a cabeça que sim… 

Bolsa estourada, líquido transparente, batimento do Bento voltando ao normal! Uma mistura de alívio e medo daquilo se prolongar, de eu não aguentar, do meu filho sofrer…

 – Vamos verticalizar – eu ouvi! Consegui então ficar em pé e me lembro que surgiram músicas. Abracei Antônio e dancei… Não sei quanto tempo fiquei em pé balançando de um lado para o outro com o Antônio. Sei que pedi mais analgesia e implorei por uma cesárea. Quando deitei após a segunda dose de analgesia, a médica perguntou se podia me ajudar e colocou uma barra de ferro na maca, pediu para que eu colocasse os pés na barra e avisasse qd tivesse contração. Quando avisei ela empurrou a barra para o meu peito, empurrando minha perna para meu corpo. Aquela cena pra mim parecia já um filme de terror. Mas eu não conseguia pedir pra parar. O olhar do Antônio era sereno e imaginei que realmente estava ajudando. Apesar da dor, deixei acontecer, mas agora cada vez mais assustada. Tudo, tudo tinha saído do planejado e eu não conseguia controlar mais nada! E que ironia levar um tapa na cara da vida ao experimentar na pele a tão famosa perda do controle que tentei tanto trabalhar em mim ao longo da gestação. É apavorante se entregar. É apavorante confiar no seu corpo. É apavorante você se livrar das suas crenças limitantes! O mantra que repeti tantas vezes – meu corpo sabe parir, meu filho sabe nascer – desapareceu! Eu só conseguia pensar que estava tudo dando errado. Que eu não ia conseguir. Nessa hora eu cai no choro! Chorei de soluçar! Me permiti chorar pq eu precisava expurgar aqueles pensamentos de mim! 

Chorando, eu disse que já tinha acabado. Que eu tentei mas que não tinha mais força! Eu achei que era eu quem determinava já tinha acabado, pq eu ainda estava achando que podia controlar alguma coisa! Assumi uma incompetência que meu corpo não queria assumir. Meu corpo dava sinais de que estava tudo bem, a médica me dizia que meu partograma estava evoluindo bem, e eu simplesmente não acreditava! Antônio caiu no choro junto, o que partiu meu coração e me levantei da maca mais por ele do que por mim. 

Continuei implorando por cesárea… Perguntava pra Camille pq ela estava deixando aquilo acontecer, perguntava pro Antônio pq ele não estava me ouvindo, perguntava pra médica se ela podia deixar pacientes sofrerem… Enfim. Tentei desesperadamente negar meu parto. 

Sei que em algum momento a médica disse que eu estava com um edema no colo do útero e que a cabeça do Bento estava mal posicionada. Ela fez alguma manobra em mim na hora do toque para resolver isso, mas eu não me lembro direito. O que eu me lembro bem foi da médica conversando com a Camille sobre spinning babies e a Camille gentilmente me convencendo a fazer para ajudar o Bento a descer, pq nessa hora eu já não queria fazer mais nada. Mas a Camille é maravilhosa e gentil e acabei fazendo! 

As dores foram ficando maiores. Camille ia me sinalizando cada detalhe. Ela dizia: olha, ta saindo sangue, olha você fez cocô (sim! Fazemos!) Tudo que indicava que o parto estava evoluindo, que estava acabando, mesmo eu me convencendo que não ia dar certo. Até que no meu limite, chamei a médica e falei muito sério sobre a cesárea. Ela disse que eu não tinha indicação nenhuma e que estava tudo evoluindo muito bem, mas que como eu realmente estava muito cansada, poderíamos fazer mais uma dose de analgesia e ocitocina, e se não funcionasse, ela iria me atender e me levar pra cesárea. 

Eu aceitei mas o medo da dor provocada pela ocitocina me paralisou. Eu já não aguentava mais de dor e sei que ocitocina iria fazer doer ainda mais! Quando a enfermeira entrou no quarto com a ocitocina, como num passe de mágica, eu senti meu canal vaginal arder! Era o círculo de fogo! 

Sim! Eu estava parindo e estava dando certo! Meu corpo sabe parir, meu bebê sabe nascer SIM! Foi só o que eu pensei na hora. Como uma chave, virei meu padrão de pensamento e a confiança tomou conta de mim!!

Fiquei em pé, arranquei o acesso do soro que estava na minha mão, joguei o meu corpo em cima da maca e fiz força! A cada contração eu ouvia o Antonio no meu ouvido dizer: Você consegue! Fechei os olhos e sentia o Bento descer, em silêncio. Gritava agora só no fim da contração, pra tomar mais fôlego. Sentia meu corpo e o corpo dele juntos, em harmonia. Ali sim eu me entreguei. Ali sim eu fui protagonista do meu parto. Eu estava tão conectada que me lembro da médica falar pra eu fazer uma força maior e eu dizer: não tenho contração, vou esperar. Lembro da médica me sugerir sentar na banqueta e eu gritar que não! Era o meu parto! E eu ia parir em pé! Uns 20 minutos depois senti a cabeça dele descer. Na contração seguinte senti o corpo sair e, de olhos fechados eu disse: NASCEU! Bento não chorou quando saiu. Chorou quando peguei ele no meu colo. 

A carinha dele de olhos abertos me olhando é a cena que eu nunca vou me esquecer. Sentei com ele nos meus braços, Antonio nos abraçou e eu cantei! Dei as boas vindas a ele e ficamos assim, nós 3 juntos chorando, abraçados e agradecendo! Nossa hora de ouro foi respeitada, nossa vontade sobre as intervenções com o Bento foram respeitadas. Ficamos ligados pelo cordão até a placenta sair, 15 minutos depois, e cortamos juntos, eu e o pai, o cordão umbilical. Não tive lacerações. Todas as nossas vontades sobre o Bento foram atendidas, ele não saiu do meu colo, mamou, e, quando a pediatra veio examinar, depois da hora de ouro, ficou ao meu lado, junto com o pai! 

Eu só conseguia agradecer a médica, a Camille, ao Antonio e ao Bento. Todos foram extremamente cuidadosos e respeitosos comigo. Não foi feito nada em mim sem explicação prévia ou sem consentimento meu ou do Antonio, e isso é o que realmente me faz lembrar do meu parto com carinho e saudade! 

Aprender a perder o controle e a confiar no seu corpo, na natureza, foi a parte mais difícil pra mim e também a mais transformadora. Hoje sei que posso tudo e com o meu filho nos braços tenho a certeza da minha capacidade de ser mãe e de ser mulher!

Eduarda

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