Soraia Mello
Parto da Soraia Mello
Nascimento da Dora
24/08/2018
Sobre a gestação
Há uma semana que tenho convivido com fissuras e lacerações que não estão apenas nas marcas do corpo, mas nas teorias, nos sentidos e nos sentimentos. Foi uma gestação ativa, em que me senti muito bonita e acolhida por uma rede de amigos que me fortaleceram como somente uma verdadeira família é capaz de fazer. São essas pessoas que geraram ao meu lado e que desejo ter como referência na educação de Dora, rainha!
Era outubro de 2017, estava na Colômbia quando comecei a me achar estranha. Fiz um teste de farmácia e apareceram dois risquinhos leves. Que emoção não contida! Cheguei dez dias depois ao Brasil fazendo exames e compartilhando a alegria com família e amigos. Pouco tempo depois um sangramento nos deixou frustrado, jamais vou esquecer o Vitor dizendo: amor agora eu gostei e quero… foi assim de primeira que Dora foi concebida.
Em meio aos projetos do CECIP, o Mestrado e as responsabilidades do maracatu cada mês era uma nova descoberta, muitos exames, muitas consultas e tudo sempre maravilhoso, pressão, peso, batimentos. Era uma gestação tranquila, mas nossa ansiedade nos fazia querer acreditar que ela viria antes do termo, apenas ilusão e expectativa.
A escolha de uma doula fez toda a diferença no processo. A presença e intervenção da Fernanda Melino e do Fardo de Ternura criaram oportunidades de pensar sobre o parto que queríamos e como conduzir até lá com segurança e informação. Foi maravilhoso acompanhar o Vitor se tornar um pai ativo e ter os homens da nossa rede de amigos como boas referências de paternidade.
Quando começou o mês de agosto também começaram as pressões e a expectativa de chegada. Eu recebia cerca de 10 mensagens por dia perguntando se estava tudo bem, traduzindo: Dora já nasceu? Foram três sábados seguidos sem sair de casa, pois as cólicas e contrações estavam na preparação do corpo e da mente.
O Parto
No dia 22 de agosto, pelas minhas contas, baseadas na data da última menstruação estaria completando 41 semanas e segundo o protocolo do Maria Amélia esse era o prazo para indução, já que tinha feito o pré natal pelo plano com uma médica cesarista e ela nem sabia que eu iria pra uma maternidade pública, o Maria Amélia, quis evitar a fadiga. Ainda bem que saiu tudo melhor que eu pensava.
Logo pela manhã recebi uma mensagem da doula perguntando se eu não preferia esperar até sábado quando completaria 41+3 e que esta era a indicação dos principais órgãos de assistência ao parto. Teimosa que sou e como já havia me programado resolvi ir com a condição de que diante de qualquer sinal negativo voltaria pra casa tranquila. A indução não rolou pela diferença das semanas do primeiro ultrassom. Ainda bem!
Disposta a curtir todos os aniversários dos dias seguintes me surpreendi com cólicas ainda na madrugada do dia 22 para o dia 23, mas cansada de alarmes falsos nem dei atenção. Pela manhã Vitor saiu pro trabalho e comentei sonolenta das cólicas. As 9h as dores começaram a incomodar mais…tentei avisar, mas ele estava em reunião e só viu a mensagem duas horas depois quando Tia Denise e tio Nino já estavam a caminho de casa e as contrações começavam a doer ainda mais. Avisamos a doula que estava em Niterói e algumas horas depois chegou em casa.
A tarde seguiu assim com contrações regulares, aos poucos já não era possível sentar na poltrona ou deitar na cama, apenas a bola de Pilates salvava. Ficamos só em casa, Vitor e eu, mas ele seguia contando pra Fernanda cada movimento ou avanço das contrações como as saídas do tampão rosadas ou o grito de dor mais grave.
Às 19h cheguei no limite da dor e Vitor achou bom chamar a doula pra voltar pra nossa casa e também tio Nino que nos levaria pra maternidade. Chegamos por volta de 20h30 no Maria Amélia, estava vazio e as dores eram intensas de não conseguir não vocalizar quando a contração vinha. Uma médica jovem e muito tranquila fez o primeiro toque de admissão e arrancou lágrimas dos meus olhos quando disse que eu estava com 6 cm de dilatação e se forçasse chegava a 7.
Logo depois subimos pra sala de parto, uma suíte bem tranquila com todos os recursos que eu precisava pra trazer Dora ao mundo. As enfermeiras muito jovens nos deixaram muito a vontade e eu confesso que até gostava quando elas entravam pra me contar da evolução do trabalho de parto, isso a cada uma ou duas horas. Neste intervalo, Vitor e Fernanda deram conta de uma Gorila prestes a dar a luz. Ai que dorrrr com um sotaque bem Paulista foi o que os corredores daquele andar devem ter ouvido de sobra naquela noite. Eu estava ansiosa pela dor, mas quando ela chegou estava disposta a fazer qualquer coisa pra ela passar. Ainda bem que a Fernanda se fazia de desentendida quando eu perguntava de anestesia ou de estourarem minha bolsa pro trabalho evoluir.
Eu sabia que Dora estava alta, acima da bolsa ainda intacta e que as conversas que tentavam ser discretas entre as enfermeiras me deixavam meio desesperadas como se eu não fosse conseguir, mas é lógico que neste momento não tinha a mínima condição de dialogar sobre isso, no máximo consegui perguntar pra Fernanda: e se ela não descer? Ela respondeu assertivamente: ela vai descer!
Já era dia 24 de agosto, 1 hora da manhã entram 3 enfermeiras, 9 centímetros de dilatação, uma delas pede pra eu tentar agachar nas próximas duas contrações. Na primeira, a bolsa estoura e assusta o Vitor, depois foi impossível encostar em mim, era muita dor, muita, sem intervalo.
Minutos depois veio aquela força de cocô que eu sabia que era o expulsivo, mas nem acreditava que eu fosse capaz. Lembro da banqueta entrar pela porta, sentei, o Vitor me apoiou e na primeira força a enfermeira disse que já estava vendo o cabelinho, saiu a cabeça num círculo de fogo e eu usei toda a força do meu corpo pra trazê-la inteirinha pro meu colo.
Fernanda mágica colocou a música do Caymmi e eu pari ao som de Dora, rainha do Frevo e do Maracatu. Dora veio pro meu colo quentinha, redondinha, escorregando com um cordão grande. A dor passou e eu fiquei em choque, deixei todas as lágrimas e a pressão baixa pro Vitor.
Todo, eu disse todo o meu plano de parto foi respeitado. A pediatra entrou e não mexeu na Dora, foram mais de 2 horas de pele a pele, banho só depois de 24 horas, cheirinho de vérnix, todo o corpinho quente jogadinho sobre o meu. Uma sensação que carrego eternamente em mim, com muito orgulho de ter sido escolhida como mãe por Dora, da família que construí com Vitor.
