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Casa de Ternura - Acolher, apoiar e potencializar a sua história. A Casa de Ternura é um espaço de assistência à família da gestação ao processo de desmame.
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Casa de Ternura - Acolher, apoiar e potencializar a sua história. A Casa de Ternura é um espaço de assistência à família da gestação ao processo de desmame.
Relatos de Parto

Elisa Martins

Relato de Parto - Elisa Martins
Meu relato de parto começa antes de engravidar, só não sei bem onde começar. Acho que começa no meu estágio de ginecologia e obstetrícia na faculdade. Lembro de chegar ao estágio na maternidade pública em Recife com um pensamento muito comum ainda, mas que na época eu não tinha ideia de como era influenciado pelos outros. Eu pensava “não sei porque nesse mundo as mulheres ainda tem parto normal quando a gente pode ter filho sem dor. Eu acho que parto normal é uma tortura”. Sim, é vergonhoso, mas eu pensava assim. E foi ali, na maternidade pública com tão poucos recursos que eu vi o primeiro parto normal na minha vida. Era uma menina de 18 anos, surda. Lembro da enfermeira se comunicando em libras com ela. Lembro que meus olhos encheram de lágrimas ao presenciar o nascimento. Aquela emoção era coisa de outro mundo. Vi muitos outros partos durante o meu estágio. Não vou florear o passado, vi coisas erradas também. Gestantes sem direito a acompanhante, com pouca autonomia sobre seus corpos, mas, de alguma forma, aquela experiência me tocou e eu comecei muito lentamente a ter contato com a realidade do parto no Brasil. Sei que saí do estágio certa de que o parto normal é a melhor via para se tentar. Isso foi em 2010. Corta para 2018. Depois refletir sobre o fardo de ser mulher e da maternidade compulsoria na nossa sociedade, decidi que queria ser mãe. Eu e o Alirio, meu marido, tentamos por 3 anos, sem sucesso. Meu ovário policistico não ajudava em nada e, pra completar, descobrimos que os espermatozoides dele tb não eram campeões olímpicos. Passamos por um tratamento de indução da ovulação que não deu certo e foi frustrante. Decidimos tentar uma segunda vez. Esse processo todo era muito desgastante emocionalmente pra mim, além de ser um peso financeiramente. Antes de tentar engravidar, eu já tinha ideia de que eu poderia ter dificuldade e pensava comigo mesma se iria até o fim (como uma fertilização in vitro) para conseguir meu objetivo. A ideia de fazer vários tratamentos não me agradava. Começamos a cogitar adoção. Acho que cada um tem seu limite e o nosso seria aquela segunda indução. Deu certo! Eu, que sou mais pessimista que a média da população, nem acreditei. Durante a minha época de tentante, eu tive a sorte de conhecer a Luara em um trabalho em comum. Já conhecia a profissão de doula e já era apaixonada por essa profissão. Sempre que podia, conversava com a Luara na hora do almoço sobre as experiências dela e sobre parto. A Luara foi muito mais que uma colega de trabalho, foi um apoio super importante durante esse período. Assim, qd eu confirmei a gravidez, ela foi uma das primeiras a saber e eu já a chamei pra ser minha doula, nem obstetra eu tinha kkkkkk
Relato de Parto - Elisa Martins
Relato de Parto - Elisa Martins
Relato de Parto - Elisa Martins
Relato de Parto - Elisa Martins
Relato de Parto - Elisa Martins
Relato de Parto - Elisa Martins

Comecei o pré Natal e já no primeiro trimestre veio o diagnóstico de Diabetes gestacional. Fiquei triste, mas pensei ” a maior parte dos casos a gente consegue controlar com dieta e exercícios, vamos seguir em frente”. Tentei me cuidar ao máximo, mas mal sabia eu o que me esperava. No segundo trimestre não teve jeito, mesmo com todos os cuidados eu tive que começar a insulina. Fiquei revoltada, não sei nem com quem, talvez comigo mesma. Insulina significava um cuidado muito maior, uma gestação de risco maior. Senti que meu corpo falhou comigo e com meu bebê. Mas acho que usei toda essa frustração como combustível para continuar me cuidando. A dieta era uma coisa louca, cada semana a gente tinha que ajustar algo. O exercício era algo indispensável. O peso era controlado a cada grama, o meu e do bebê. Toda semana tinha que mandar o controle glicemico para a encodrino e ajustar a dose de insulina. Tinha semanas boas e semanas ruins. Não sabia mais o que era pão, arroz, macarrão, batata. Sonhava em comer pão com manteiga. Enjoei de castanhas e queijo, que eram os lanches mais possíveis.

Enfim, por causa da DMG e da insulina, eu não poderia passar das 40 semanas. A indução passou a ser uma realidade bem possível para mim. Isso me deixava triste, tinha uma ideia de que a indução poderia ser mais dolorosa ou que poderia falhar. Li todo relato de parto que encontrei com histórias de indução. Conversava bastante com o Pedro, meu obstetra, e com a Luara sobre o que eu queria. Tinha medo de não conseguir aguentar a dor. Comecei a pensar comigo mesma “eu vou ate onde aguentar”, mas nem eu colocava mt fé na minha capacidade. Ocitocina era algo que me dava medo. Por conta da perspectiva da indução, desanimei um pouco de fazer o plano de parto. Pensava “ah, vou escrever um monte de coisa que não vai acontecer, pois vou estar passando por todo o processo dentro do hospital”. Pensando agora, eu poderia ter feito o plano de parto sim, inclusive focando na indução. Façam seus planos de parto, meninas!

A data limite para espera foi dia 27/12. Chegou dia 20/12 e Vicente não dava o menor sinal de querer sair do forninho. Não sentia nem podromos. Não sentia contrações de treinamento, o tampão não saia, nada! Pra tentar ajudar no parto, fiz 2 sessões de Acupuntura nessa semana. Dia 23/12, depois da segunda sessão,  comecei a sentir as contrações de treinamento. Uma pequena esperança apareceu, mas nada mudou até o dia 27. Então era isso, havia chegado a hora de enfrentar a indução. Internei dia 27, uma segunda feira a noite, e comecei a indução com o Propess. Na primeira avaliação, colo completamente fechado e grosso. Xi, acho que vai demorar um tanto…

Fiquei as 24h com o propess, sem nenhuma mudança. Ficava andando pelo quarto do hospital pra tentar ajudar, mas não sentia nada além das benditas contrações de treinamento. Na terça a noite o Pedro me avaliou, de novo o colo sem mudanças,  e começamos o misoprostol. Já no primeiro comprimido comecei a sentir uma dor na lombar, meio constante, como um aperto. No segundo comprimido, 6 horas depois, as contrações começaram, ainda leves e espaçadas, tava bem tranquilo de aguentar. A cada 12 horas fazia uma cardiotoco pra avaliar o Vicente, ele ficou bem durante todo o processo. Eu ficava um pouco tensa nas cardiotocos pq a qualquer sinal de sofrimento fetal nos teríamos que mudar os planos e partir para uma cesariana. Vicente se comportou mt bem nesse momento!

Passei a quarta feira com contrações leves. A Luara foi no hospital e fizemos exercícios de spning babies,  o que aliviou as contrações. Ela tb deixou um óleo com aromas para massagem. A tarde, minha mãe levou o shake de ricino e eu tomei. Achei que o gosto seria pior, mas foi ok! Não sei se foi o Shake ou só a evolução do trabalho de parto, mas na quarta no fim da tarde eu passei a sentir contrações mais frequentes. Sentia contrações a cada 2 minutos, mas elas ainda eram muito irregulares em tempo e intensidade. Comecei a ficar cansada e sem paciência. Ficava bastante tempo encolhida sobre meus joelhos. Uma coisa engraçada dessa hora foi que uma enfermeira entrou no quarto para me avaliar e não me viu. Eu tava tão encolhida no pé da cama que ela achou que eu era uma trouxa de lençol.

Chamei uma médica pra me avaliar e no toque ela disse que eu estava com 2 cm. Nossa, foi um balde de água fria, 2 cm não é nem trabalho de parto. Dei uma desanimada, pensei no tanto que ainda ia ter que aguentar. Umas 2 horas depois o Pedro veio fazer mais um comprimido do misoprostol e avaliou o colo de novo. Sim, eram 2 cm, mas, segundo ele, o colo já havia afinado mais. “É oooutro colo”, ele disse. Não sei se ele falava mais pra me animar, mas de fato ele me animava. Kkkkkk ter uma equipe que banca com vc o que vc quer é muito importante. Ele perguntou se eu aceitaria colocar o balão junto com o comprimido para ajudar no trabalho de parto. Eu aceitei, pensando sempre  “se eu não aguentar em peço pra tirar”. Depois que ele colocou o balão, as contrações ficaram mais fortes e regulares, mas mais espaçadas, o que foi bom, pois eu conseguia descansar melhor entre uma e outra. Fiquei tendo contrações a cada 3 minutos. Fui pro chuveiro e meu marido ficava me “regando” com a água quente. A água ajudou muito, realmente aliviou muito as dores. Fiquei entre o chuveiro e o descanso das 22:00 as 04:00, qd o Pedro voltou pra me avaliar. Quando ele fez o toque e viu 6 cm, eu fiquei surpresa. Achei que estaria doendo mais kkkk

Decidimos romper a bolsa e ir pra sala de parto.  Chamaram a Luara,  eu fiquei animada, pensava “tamo avançando, um passo de cada vez”. Depois de romper a bolsa, quando chegamos na sala de parto, as contrações começaram a ficar mais fortes. Eu tentava me concentrar para fazer algum exercício, mas era difícil. Passei a vocalizar mais durante a dor. O Pedro colocou a temida ocitocina, as dores aumentaram. Logo depois da ocitocina, os batimentos do Vicente diminuíram de um jeito preocupante e o Pedro falou que teríamos que ir para a cesariana, eu assenti. Só que ele tirou a ocitocina e os batimentos voltaram a normalizar e se mantiveram, então conseguimos seguir com o trabalho de parto. Nessa hora, já estava amanhecendo, eu comecei a sentir muita dor e vomitei. Comecei a ficar irritada com o acesso venoso, que tava doendo. Me descontrolei, gritava e chorava nas contrações, um pouco pela dor, muito pela irritação. Queria fazer exercícios pra ajudar no parto, mas não tinha vontade de levantar da cama. Pedi anestesia. Meu marido, a Luara e o Pedro ficaram ao meu lado até o anestesista chegar. Não sei quanto tempo ele demorou, mas na minha cabeça ele demorou séculos kkkkk quando finalmente eu fiz a anestesia, parecia que estava em alfa. A dor havia passado, eu tava tranquilona good vibes kkkk o Pedro avaliou e disse que eu estava com 9 cm. Nossa, fiquei mt feliz, pensei “quando voltar a doer já vai ser pra acabar o parto”. Todos nós descansamos um pouco, não lembro por quanto tempo. Depois a Luara começou a me estimular a fazer os exercícios. Fiquei um tempo fazendo o que ela orientava. Ela tb conversava comigo e me dava segurança e conforto. Passei a sentir as dores de novo. A partir daqui eu lembro que tudo foi mt rápido. Senti umas 2 contrações dolorosas, respirei fundo e pensei “agora vou aguentar até o fim”. A terceira contração veio e não parou, ficou mt tempo doendo. Senti vontade de ir ao banheiro fazer cocô, mas pedi pra ir pra banqueta (na hora parecia fazer sentido kkkkk) assim que sentei, senti um peso maior no perineo e vontade de empurrar. Meu marido foi correndo chamar o Pedro. Rapidamente eu me vi com a Luara ao meu lado, meu marido me apoiando pelas costas e o Pedro deitado no chão pra ver como eu tava. Lembro que a Luara foi pegar um banco pro meu marido sentar atrás de mim e eu gritei pra ela “Luara, pelo amor de Deus, não sai do meu lado”. A Luara voltou correndo kkkkk

Eu sentia vontade de empurrar. Eu tava com medo, mas não tinha pra onde correr. Fiz a primeira força e senti a cabecinha dele começando a sair. Ficou pela metade. Fiz a segunda força e a cabeça saiu por completo. Durante as pausas das contrações eu lembro de querer que acabasse logo, que a próxima contração viesse rápido, mas tb me sentia mt cansada. Na terceira e última contração, ele terminou de sair. Colocaram ele no meu braço. Não tinha mais dor, tudo era paz. Lembro do meu marido emocionado, lembro da Pediatra falando comigo. Me colocaram na maca de novo. Minhas pernas tremiam muito sem força, mas eu não tava nem aí. Vicente fez coco e xixi em mim kkkkk esperamos até a placenta sair, doeu um pouco, mas nada comparado a Vicente saindo kkkkk tive laceracao grau 2 e precisei de sutura, mas a essa altura eu não tava mais ligando pra nada. Eu sentia um clima de muita paz e alegria, de comemoração, sei lá, como se todo mundo estivesse muito tranquilo. Fizemos umas fotos com Vicente no meu colo, ainda ligado a placenta e depois meu marido cortou o cordão. Fizemos fotos com a equipe, colocaram Vicente pra mamar, eu comi biscoito com açúcar, nossa!! Me senti a mulher maravilha.

É isso, meninas! Se eu puder dar alguns conselhos, seriam: confiem em vcs, abracem seus medos, entendam suas fraquezas. Na hora as coisas acontecem e vc consegue passar por elas, não sei nem como. Se puderem, escolham uma equipe que vcs confiam. Tenham nas suas doulas o ponto de apoio e segurança, se desesperarem, corram pra elas. Vcs estão em ótimas mãos! E por último, se entreguem ao processo, nos não temos mesmo controle sobre tudo o que acontece. Seu filho pode vir do jeito que vc espera, mas pode ser que seus planos vão por água abaixo. No fim, o que importa é vc e seu bebê ficarem bem. Somos muito poderosas. Confiem em vcs!

Tags do Post: #Elisa Martins#relato de parto#relatos de parto#relatos de partos

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