Ana Helena
Relato de parto da Isabel
Isabel nasceu dia 17 de outubro de 2021, às 23h14, em nosso quarto, em um parto domicilar planejado. Chegou de uma forma tranquila, natural, fluida, do jeito que eu sonhei e tanto desejei. Na verdade, foi muito mais incrível do que eu imaginava. Muito mais difícil também. É inexplicável a sensação, a dor, a emoção, é uma loucura. Só hoje, sete meses depois, eu consegui elaborar tudo o que aconteceu e tomei coragem e fôlego pra relatar esse acontecimento tão extraordinário.
Eu sempre desejei ter um parto natural. Sabia que não seria simples, por já conhecer um pouco da nossa realidade obstétrica cesarista e por isso, assim que engravidei, já comecei a me preparar. Sorte a nossa que já tínhamos uma doula na família, a Luara, que nos trouxe ao Fardo de Ternura, grupo maravilhoso e fundamental para apoiar e guiar gestantes nesse universo do parto respeitoso. Com o apoio da Luara e do Fardo, nós buscamos muita informação, muita mesmo, sobre o assunto e decidimos que nosso parto seria em casa. Eu assisti milhares de vídeos de parto, documentários, li muitos relatos, enfim… eu acho que eu precisava me familiarizar com o processo todo pra me sentir bem segura. Além disso, conhecemos uma equipe muito boa de enfermeiras obstétricas, a Raízes do Nascer, que nos passou muita segurança desde a primeira consulta no pré natal. Inclusive, a decisão pelo parto domiciliar também veio por conta dessa afinidade que tivemos com as parteiras. O que começou sendo só uma possibilidade remota nessa busca pelo parto natural, foi se tornando a nossa melhor opção, quando passamos a conhecer mais sobre o assunto e entender que era possível seguro para o nosso caso (gravidez de risco habitual – baixo risco). Eu sabia que em casa eu me sentiria mais tranquila para que eu pudesse me conectar comigo mesma durante o trabalho de parto e, portanto, ele fluiria melhor. O pós parto, que seria em casa (no nosso quarto!) também foi um ponto chave nessa decisão. E principalmente, ter a tranquilidade de saber que não haveria nenhum risco de sofrer violência obstétrica ou neonatal, os meus maiores medos.
Decididos de que o parto seria domiciliar (claro, se não houvesse nenhuma intercorrência), chegamos às 40 semanas de gestação e a ansiedade começou a aparecer. Eu jurava que nasceria antes das 40 semanas! Eu sentia muitas contrações de treinamento e achava que era certo que nem chegaria a DPP, viria antes. Mas, nada disso. Com 40 semanas e 6 dias ela escolheu nascer (a poucos minutos de completar 41 semanas)!
Era domingo. Acordei cedo, meu sono tava muito leve nos últimos dias, o barrigão pesado, a azia infinita e os muitos chutinhos não me deixavam dormir muito. Acordei já pensando na sessão de acupuntura que faria mais tarde pra ajudar na indução. No dia anterior, resolvi arrumar a casa toda (pela milésima vez kkk) e abastecer a geladeira com comidinhas para ter durante o parto. Esse “preparar a casa” foi bem gostoso, me tranquilizou e me conectou com o que estava por vir. Tambem fiz e tomei o tal “chá da Naoli” pra começar os métodos de indução natural (indicação das parteiras). Já tinha começado a usar óleo de primula pra ir estimulando. Pelo visto, toda essa bruxaria ajudou. Assim que fui no banheiro no dia seguinte, domingo de manhã, vi que saiu um pontinho de sangue no papel. Meu coração acelerou. Seria o tampão começando a sair? Voltei pra cama e fiquei quietinha prestando atenção no meu corpo pra ver se algo estava diferente. Comecei a perceber que quando a barriga endurecia durante a contração de treinamento, vinha junto uma cólica leve. Pensei: “opa, isso aqui tá diferente!” e avisei as parteiras. Elas me orientaram a manter as atividades habituais pois poderia ser o comecinho do trabalho de parto ou não, tinha que observar. Era umas 7h30. Levantamos pra fazer café e aquelas contrações nao paravam de vir, junto com a colicazinha. Colocamos música e ajeitamos a casa, a gente queria deixar tudo preparado para caso o trabalho de parto evoluísse. Por volta de 11h aquela cólica já estava mais forte e me incomodava bastante, a ponto de precisar parar o que eu estava fazendo e esperar passar. Não tinha mais como sair de casa, desmarcamos a acupuntura. Fui tomar um banho quentinho pra relaxar mas as dores intensificaram muito. Saía sangue também, era o tampão saindo aos poucos. Eu fiquei super assustada e liguei pra Luara, não tava conseguindo lidar muito bem com aquelas dores, acho que minha ficha caiu e eu comecei a ficar ansiosa e sentir muito medo. Mesmo eu achando que estava bem preparada pra parir, na hora que eu me dei conta de que o trabalho de parto tava começando, fiquei muito nervosa. Mas, é um fato: quem tem uma doula tem tudo. Luara foi me acalmando, me explicou exatamente o que tava rolando e me fez lidar melhor com aquela dor. Ela me ajudou a ver aquela situação de outra maneira, com muito mais serenidade, sem desespero, sem medo. “A Isabel ta chegando”, a Luara falou. Virou uma chave ali. Não era pra ter medo, era pra comemorar! Ela tava chegando, como eu esperei por isso! Luara também me lembrou de mergulhar na dor. Eu li muito isso nos relatos, que a gente deve mergulhar de cabeça na dor. A contração é como uma onda, você sente ela chegar, crescer, e ir embora. Depois descansa que vem outra. Aceitar que ela vem e vai, e cada uma que passa é uma a menos. Pronto. Depois disso eu me deixei levar. Mergulhei. Eu já estava vocalizando alto quando vinha a dor, e Ricardo achou melhor chamar as parteiras. A Luara também estava a caminho.
Eu acho que elas chegaram por volta das 15h. Primeiro chegou Jordana. Eu estava no chuveiro, ela veio toda sorridente me ver e auscultar o coração da Isabel. Fiquei muito feliz e tranquila quando ela chegou. Logo depois chegou Luara. Me abraçou forte e segurou firme na minha mão. Eu tava sentindo muita dor, as contrações estavam bem fortes e eu gritava alto quando ela vinha. Luara logo pegou seus óleos maravilhosos e ficou um tempão fazendo massagens e conversando comigo. A presença dela me trouxe muito conforto e carinho e as dores foram ficando mais “suportáveis” (ou eu fui me acostumando com elas). Ficamos um bom tempo no quarto, até que eu fui pra sala e vi que a Alessandra tinha chegado, a Mary chegou depois. A banheira já estava cheia, as cortinas fechadas, pouca luz, música tocando… exatamente como eu havia descrito no meu Plano de Parto. Estavam todos lá, cuidando de mim e da Isabel. Até os gatos estavam pertinho, tranquilos, deitados no sofá.
Fui pra banheira e fiquei um bom tempo na água quentinha. As dores eram muito fortes, eu mal conseguia abrir os olhos, me concentrando pra aguentar a dor e tentando descansar pra próxima. Durante a contração, eu sentia uma dor absurda nos quadris, como se estivessem se abrindo. Eu pedia para alguém apertar forte nos quadris em toda contração pra aliviar um pouco a dor.
Lembro que ficava gritando “alguém apeeertaaa!” quando contraía forte e sempre tinha alguma mão cuidadosa que vinha por trás e fazia pressão no meu quadril. Era muita dor, e tava cansativo demais, mas a todo momento alguma voz doce falava algo do tipo “você tá otima”, “Isabel tá bem, tá tudo indo bem”, “confia”, “dói mesmo, mas seu corpo tá preparado”. E assim foi por algumas horas, até que chegou um momento em que as dores começaram a ficar insuportáveis, e a sensação era de que as contrações estavam muito mais frequentes, não tava dando mais pra descansar. Eu tava muito cansada, exausta.
Eu não me lembro exatamente como foi, mas de repente achei que não daria mais pra continuar, tinha chegado no meu limite. Resolvi que não queria mais continuar ali e falei com a equipe “Gente, não consigo mais. Eu quero ir pro hospital, preciso de anestesia. Não vai rolar não”. Eu não aguentava mais sentir dor. Já não tinha mais posição “menos desconfortável”, as massagens não tavam aliviando nada, minhas pernas estavam fracas, não tava mais fluindo bem. Eu não tava mais conseguindo me concentrar, só queria que aquela dor parasse ou ao menos diminuísse, mas a sensação era que a cada vez ela vinha mais forte . “Vamo pro hospital agora, preciso de anestesia, não vai dar”. Eu tava decidida. Fiquei agoniada pensando no caminho até o hospital, e o pior seria entrar no carro daquele jeito, sentindo tanta dor.
Que maluquice foi essa de parir em casa? Que que eu tô fazendo aqui? Bateu um desespero, foi horrível. As parteiras, Ricardo e Luara, todos conversaram comigo, me incentivando a continuar, diziam que eu tava indo muito bem, que cada dor era uma a menos, etc etc, todo o repertório. A decisão era minha e eu já tava decidida, não dava mais pra continuar.
A Luara nessa hora chegou perto de mim e com todo cuidado sugeriu voltar pro chuveiro, só eu e Ricardo, pra tentar relaxar um pouco e decidir com calma o melhor a se fazer. Aceitei e lá ficamos algum tempo, nós dois. Eu já tava chorando de dor, xingando, descontrolada, e ele super firme e tranquilo me lembrava do por quê escolhemos estar ali, de como seria bom pra nós duas estar na nossa casa depois que Isabel nascesse, e como tava tudo indo bem. A Luara pediu pra entrar e ficou com a gente no banheiro. No meio dos meus gritos de dor ela conversou comigo e sugeriu uma última estratégia e se depois disso eu ainda quisesse desistir, a gente transferia pro hospital.
Ela perguntou se eu aceitava que as parteiras fizessem um toque vaginal pra ver como estava a dilatação e a posição da Isabel. Com essa informação, saberíamos se o trabalho de parto já tinha avançado muito ou não, o que me ajudaria a tomar a decisão final de forma mais consciente. Aceitei. Fez todo sentido essa intervenção. Na verdade, era o que eu precisava pra continuar! (Detalhe: foi o único toque que eu recebi durante todo o trabalho de parto e que só foi realizado porque assim quis. E foi muito bem indicado, por sinal). Nós fomos pro quarto e a Mary veio fazer o toque. Acho que ficamos só nós duas essa hora. Eu lembro que ela sorriu e disse que a Isabel tava muito baixa, praticamente com dilatação total. Só faltava um pouquinho, um último “giro”, um encaixe final pra descer. Eu olhei pra ela e perguntei se ela estava falando a verdade ou se era só pra eu não desistir. Era verdade, tava faltando muito pouco pro expulsivo. “Então vamos, bora. Vai rolar!!”. Foi aí que eu juntei as minhas últimas forças e decidi que ia conseguir sim, afinal, já tava acabando!! Foi o momento mais difícil de todo o trabalho de parto, mas o mais marcante também, porque eu senti na pele a diferença que faz ter uma boa assistência, atenta as minhas necessidades, sensível e respeitosa.
As meninas sugeriram fazer alguns movimentos com o quadril para ajudar nessa abertura e abrir espaço para a Isabel a descer melhor. Eu sentia muita muita dor, e elas usaram o rebozo pra me ajudar nesses movimentos. Se revezaram nas massagens e no rebozo, me ofereciam água, me incentivaram, e não saíram de perto nenhum minuto. Sério, que assistência perfeita que eu recebi. Elas foram incansáveis, mulherada foda demais.
Um tempo depois eu comecei a sentir que quando eu fazia força durante a contração a dor meio que mudava, não sei explicar direito, e vinha uma pressão pra baixo. Senti que já estava chegando no expulsivo (graças a deusa!). Amarraram o rebozo na porta para que eu pudesse puxar durante as contrações. Veio uma contração muuito forte, eu berrava e puxava o pano com muita força. De repente “ploft!”, um barulho de água batendo com força no chão.. minha bolsa tinha estourado! As meninas limparam rapidamente pra eu não escorregar (eu tava em pé) pois eu não conseguia mudar de posição, mal me mexia, de tão concentrada que eu tava. Vinham contrações fortes e longas, e eu fazia força, sentia a pressão cada vez maior empurrando pra baixo. Percebi que elas estavam monitorando mais frequentemente o coraçãozinho dela, então era sinal de que ela tava quase chegando. Alguém perguntou se eu queria voltar pra banheira pra ela nascer lá, e achei melhor ficar ali mesmo, no quarto. Minhas pernas já estavam fracas, cansadas, e eu pedi a banqueta. Sentei na banqueta, me apoiei em Ricardo e Jordana ficou na minha frente junto com Alessandra. Eu reparei que os materiais pra chegada da Isabel (paninhos, primeiros socorros, etc) já estavam arrumadinhos ali do lado. Fiquei feliz demais. Tava acabando, ela tava chegando! Eu perguntava toda hora se tava tudo bem, e elas sempre calmas, diziam que estava tudo perfeito. Eu via nos olhos delas que estava tudo bem mesmo. Pediram pro Ricardo ficar do meu lado para conseguir ver melhor. Acho que nessa hora Isabel começou a coroar, a pressão que eu sentia pra baixo tava muito forte, eu sentia até nervoso de me mexer (a sensação era de que o c* ia sair pra fora kkkk). “Ih, ela é cabeludinha hein!”, a Jordana falou de um jeito fofo. O Ricardo chorava muito, esfregando os olhos na minha perna. Me perguntaram se eu queria colocar a mão pra sentir a cabecinha dela, eu disse que não, acho que queria me concentrar pra acabar logo. Era muita dor, e eu senti arder muito também, o tal “círculo de fogo”. Respirando fundo, esperei vir uma contração pra fazer muita força. Dei as mãos pra Jordana, apoiei meus pés na perna dela, Luara atrás de mim dando apoio, e fiz uma mega força. Senti ela saindo. Ricardo chorando muito: “ela ta vindo, amor!!”. Esperei mais uma contração. Respirei fundo, tentei relaxar, tava doendo demais, queimando muito, eu olhava as meninas, que tavam tranquilas e atentas, tava tudo bem! Tá quase chegando. A última contração chegando, segurei nas mãos de Jordana, fiz aquela super força, e eu senti sair de mim o corpinho quentinho da minha neném. Senti direitinho quando passou o ombro e depois as perninhas. Doeu muito, mas foi uma dor rápida.
Assim que saiu, parou de doer no mesmo instante. Que alívio! Ela foi amparada pelo Ricardo, que se enrolou um pouco na hora de segurar, mas logo botou no meu colo.
A melhor sensação que eu senti em toda a minha vida. Que loucura, é surreal. É incrível sentir um bebê saindo de dentro de você e depois sentir o seu corpo quentinho, escorregadio, molinho, se mexendo, fazendo barulhinhos. Veio com os bracinhos esticadinhos pra cima, os olhinhos abertos, pretinhos, e a boquinha mexendo fazendo uns barulhinhos gostosinhos e com um cheirinho delicioso. Ela era perfeita! Linda demais, forte, toda gorduchinha. Nunca vou esquecer esse momento. Perguntei se ela estava bem, as meninas falaram que tava tudo perfeito. Nossa, que alívio. Que felicidade!! Que benção!! No meu colinho, as meninas limparam a Isabel e enrolaram em cobertores quentinhos.
Ficamos nos olhando, nos reconhecendo. Ricardo tava em prantos, abraçando a gente. Eu nem conseguia chorar de tão impressionada que eu tava. É surreal mesmo. Eu tinha conseguido! Ela tava ali! Isabel nasceu grandona, com 51,5 cm e 3,695 kg. Com a ajuda das meninas, fui pra cama com a Isabel grudadinha em mim e ainda ligada ao cordão umbilical. E assim foi a nossa hora de ouro. Coladinhas pele com pele, na nossa cama, nós três, exalando muita ocitocina. Não conseguia parar de olhar pra ela e pra todos os seus detalhes, seus traços, seu cabelinho grudado de sangue, suas mãozinhas de dedos longos, bochechudinha e bicudinha. Minha menininha era linda demais!!
Depois de deixarem a gente curtir nossa hora de ouro e literalmente lamber a cria (sim, eu quis lamber a cabecinha dela) as parteiras entraram para fazer os procedimentos necessários e me examinar. Também ajudaram a colocar a Isabel para mamar e ajustar a pega. Essa foi outra sensação maravilhosa, a de amamentar pela primeira vez. Com ela mamando, eu cortei o nosso cordão umbilical e tivemos que fazer uma forcinha pra placenta sair, pois ela não tinha sido expelida ainda. Mas foi tranquilo.
Depois disso, a Mary fez uma avaliação para ver se havia alguma laceração. Pra minha sorte, tive só duas lacerações pequenas e não teve necessidade de sutura, ufa! Enquanto isso, Isabel tava sendo examinada do meu lado com todo carinho pela Jordana. Ricardo colocou a roupinha nela enquanto a Alessandra e Luara cuidavam de mim, me ajudando no banho, trazendo comidinhas.
Foi o maior privilégio de todos ver o nascimento da minha filha acontecer dentro da minha casa de uma forma segura e amparada por pessoas tão queridas. Sou eternamente grata por ter recebido uma assistência tão respeitosa e por ter conseguido proporcionar à minha filha a melhor forma de chegar nesse mundo, rodeada de muito amor e respeito.




