Alessandra
A essa hora eu dormia (ainda). E agora meu corpo parece atualizar no presente aquilo que vivi. Passei o dia sentindo meu útero, como se estivesse ativando uma memória molecular de sua atividade uma ano atrás. Celebrando, talvez o dia que chega. Era de dia de expelir. Colocar para fora o que já estava pronto. Acordei às 3h em um misto entre sonho e o real. Meu corpo doía e se contraído fortemente. A barriga ficava dura, como há dias já se manifestava, mas dessa vez com uma dor no corpo que avisava que já não daria mais pra dormir. Despertei, me dei conta de que estava acontecendo e esperei silenciosamente, só comigo pra tentar constatar o que meu corpo me dizia. Sim, eram contrações dolorosas e havia chegado o momento que eu tanto tinha pensado sobre. Acordei Antônio e disse que era o momento. Cronometramos o tempo é elas vinham de 5 em 5 minutos. Eu já não podia ficar deitada ou sentada, nem parada. De pé, balançando os quadris e apoiada na cama, deixa vir e ir aquelas ondas vibrando cada poro em mim. Contamos muitos 5 minutos e quase uma hora depois liguei pra doula e pra obstetra. Fui invadida por uma calma que não consigo descrever. Era madrugada, queria andar pela casa. Dá janela dá sala eu olhava a noite e pensava que eu estava feliz porque veria o dia amanhecendo. Tinha muito tempo que eu não fazia isso. Me vinham memórias dá adolescência, de tempos leves e gostosos. Era uma sensação de novidade, de porvir. Um frisson. Um calafrio. Ficamos na sala eu sentada na bola e ele na poltrona e começamos a ver nomes de meninos. Não havia nenhum consenso, a não ser se fosse menina. Passamos por muitas listas de nomes que não traziam conexão. A doula chegou e nos acompanhou nessa engraçada tarefa de escolher algum nome possível. Ríamos entre as contrações. Eu estava muito feliz. Sentia como um dia especial, acessando um sentimento quase infantil de descoberta. Perto de amanhecer minha mãe acordou e chegou na sala perguntando o que estava acontecendo. Eu disse a ela que havia começado o meu trabalho de parto. Ela de arrumou e colocou a roupa de bolinhas azuis que tinha escolhido pra esse dia, pra conhecer o neto ou neta. Ela e Luara tomaram café da manhã batendo um papo na mesa, mas eu não estava conseguindo sentir o cheiro dá comida. Me senti enjoada. Vim pra dentro e fiquei no chuveiro um tempo, mas me agoniava o desperdício de água. Me apoiava na bola e deixava a água bater na lombar. Não fiquei tanto tempo por causa do calor. E sentei no chão do meu quarto. A Luara sentada na cama e a gente conversava. Ela me ajudava docemente a arrumar as coisas que eu tinha que levar pra maternidade. Era comunhão o que se passava. Atravessada por essa harmonia, sentia o acolhimento nas figuras do Antônio, dá minha mãe e da Luara comigo. A dor era forte mas totalmente suportável. O dia havia amanhecido, via a chuva caindo lá fora caindo e fazendo entrar uma brisa fresca no quarto. A obstetra ligou e conversou com a Luara. Disse que a sala de parto humanizado estava vaga, para decidirmos se queríamos ir naquela hora ou se esperaríamos mais em casa. Foi o primeiro momento em que me senti nervosa. Não queria mexer nas coisas, me senti segura em casa e não queria ficar longe dá minha mãe, já que na maternidade não seria possível compartilhar da companhia dela. Decidimos ir, já que minha contrações se aproximavam de 3 a cada dez minutos. Mas não consegui conter o choro. Vomitei junto aquilo que me embolava o estômago. Mas não tive coragem de dizer que era porque queria minha mãe perto. Juntamos as coisas e fomos eu, minha mãe, Antônio, Luara e a bola pra perinatal. (Estou parindo meu relato de parto).
O dia escorria há um ano e eu hoje acordou escorrendo também invadida por intensidades mil habitando cada célula do meu corpo. Dia de deixar escorrer esse ano todo. Volto às lembranças nessas primeiras horas do dia de hoje. Ainda deitada na cama rememoro a partida para a maternidade. Foi um rompimento. Ter contrações no carro apertando a mão da Luara, sentindo os buracos e desvios dá rua chacoalharem meu corpo que não queria ser chacoalhado. Chegando na recepção. Via aquelas mulheres grávidas tirando foto, recebendo as famílias e eu era a única sentindo dor. Não consegui não pensar que faria essa mesma escolha quantas vezes fosse. Eu esperei a dor e queria senti-la. A maternidade não sabia lidar com uma grávida com contrações e tudo acontecia na sua mais perfeita normalidade burocrática. A Ju desceu pra me receber e deixou minha mãe cuidando dessas coisas enquanto eu subi com ela pra emergência pra gente te conversar e ela ver como estavam as coisas. Despedir dá minha mãe foi como uma cena lenta e dolorosa. Mas eu sorri porque não queria preocupá-la. Ju me perguntou se podia fazer um toque pra saber a dilatação e eu consenti. Não senti dor no exame, e ela me disse que estava entrando 4 e 5cm. Fiquei muito feliz porque já estávamos chegando na metade. Pensei: vai ser rapidinho. Eram 10:30. Fomos para a sala de parto, tive que deixar minhas coisas num vestiário e vestir uma roupa dessas hospitalares. Chegando à sala de parto, disse que eu não queria ficar com aquela roupa, não ia ter meu filho com uma roupa de hospital, sapatos de hospital. Toda a equipe sorriu e disse que era para eu ficar à vontade. Daí em diante voltei a sentir harmonia. Eu não havia pensado em música, nada disso, achava que seria uma bobagem. Mas Luara e Ju levaram playlists e no fim das contas, foi incrível ter um som ambiente. Eu podia dançar a chegada do meu bebê. Ajustamos tudo e lá fiquei. Andava de lado pro outro, rebolava nas contrações, recebia massagens, bolsa de água quente. Tanto carinho e cuidado. Eu estava muito alegre e plena. Antônio e Luara foram almoçar, voltaram e ele até dormiu sentado na cadeira. Ninguém me tocava sem eu deixar e o silêncio me respeitava muito. Ao mesmo tempo, rolava muito papo, risadas e eu ia sentindo uma amor intenso me preenchendo. Sentia fome, mas não conseguia comer. A dor de intensificava e eu sentia que já não dava pra falar ou rir nas contrações. Era obrigada a me concentrar no meu corpo. Eu pensava em todas as mulheres parideiras. Em todas que já pariram no mundo todo e tentava trazer essa força pra mim dizendo: vou fazer aquilo que todas elas fizeram com a ajuda delas. Eu as convoquei para estarem presentes e elas estavam todas lá. O bebê estava alto e a dilatação não avançava como eu esperava. O clima de risadas começou a diminuir porque as dores começavam a ficar intensas e o intervalo se tornava mais curto. Comecei a ficar cansada e eu sabia que não comer poderia piorar. Tomava suco, tentei comer chocolate, mas vomitei. A Carla, assistente dá Ju no no parto, que foi quem ficou na sala o tempo todo porque a Ju tava de plantão, era como se também tivesse feito o pré natal com ela e a conhecesse há tempos. Esteve ali me fazendo companhia o tempo todo. O cansaço começava a me tomar e fui pra banheira. Foi ótimo ficas recebendo massagem dá água e mudar o ambiente. Ali eu ainda fiquei um bom tempo, contava histórias, ríamos. Coloquei algumas ervas na banheira e sentia aquele perfume entrar em mim. Tempos depois quis sair dá banheira porque já estava toda enrugada. As contrações doíam muito. Pouco tempo depois eu queria muito poder descansar, recostar, tirar um cochilo. Mas como? Seria impossível. As pernas já estavam trêmulas. Resolvi ficar de joelho na cama e me encostar de frente na cabeceira com uns travesseiros. Foi a primeira vez que não consegui passar por uma contração sem emitir algum som. Precisei gemer. A dor era muito forte e nessa hora a bolsa estourou. Já era final da tarde, mas eu não sabia porque não havia janela. Perdi a noção do tempo do relógio. Havia apenas o tempo da duração. O parto podia durar o seu tempo. A água escorreu de mim enquanto escorria lá fora. (Transbordo aqui ao colocar as lembranças em palavras e acolhida toda a energia linda que vocês emanam para Madá. Sinto que estou parindo o relato com vocês.)
Estava perto do final, pensei. Mas não sabia que ainda ficaria ali algumas horas. Dali em diante era impossível passar por uma contração sem expressar a dor. Os “ais” foram se tornando urros. Me sentia muito cansada e já estava entregue. Não conduzia mais o meu corpo, ele me conduzia. Os batimentos cardíacos do bebê não se alteravam, desde o início estáveis. Minha pressão perfeita também. Comecei a duvidar de que conseguiria. Eu tinha a clareza de que não queria anestesia. Mas queria muito que aquela dor acabasse. Pedi um analgésico. Tenho vontade até de rir quando lembro. A Ju foi docemente, me olhou e falou: Ale, agora não vai fazer efeito nenhum. Eu fechava os olhos e vinha outra. O intervalo dava tempo de falar e ouvir algo, mas já não conseguia responder. A dor percorria todo o meu corpo. Fui pró banquinho, pra banheira, voltei pro banquinho. Tudo estava ruim. Na banheira, ainda sentada, entre uma contração e outra, com os olhos abertos vi uma luz intensa e todas aquelas mulheres na minha frente. Todas em silêncio comigo, serenas, me vendo urrar de dor sem me fazer sentir invadida, mas acompanhada. Vi aquelas mulheres, que já incluíam a pediatra e pensava que elas me iluminavam naquele momento. Ju sugeriu que eu saísse dá banheira porque já fazia força. Falei que eu não ia aguentar. Mas não queria anestesia, queria apenas expressar que estava no meu limite e que não estava fácil. O som dá sala era de um jazz instrumental. Sentei na banqueta e a sala escura aconchegava os últimos momentos. Eu apagava entre as contrações. E despertava quando elas começavam. Não quis olhar no espelho. Eu era bicho. Devir animal ocupando meu corpo intensivamente. Tive medo de fazer força. Mas não tinha como não fazer. Saiu a cabeça. Respira e faz força lentamente. Fiz. Era uma menina. Chegou a menina em meus braços, em silêncio, respeitando o momento da sua chegada. Eram 20:12.
